ESQUINA CULTURAL

Fim de férias

Estou de volta à rotina de vida, deixei de enforcar a sexta-feira. Agora é esperar o Carnaval para ter uma semana inteira realizando o transporte de adolescentes para os Blocos, e trazendo-os de volta para casa em horários diferentes. Muda apenas o nome da atividade, de Show para Bloco. Apesar de ser uma tarefa cansativa, própria de pai, aproveito para prestar atenção no comportamento deles durante o percurso, e nos poucos momentos de convívio em casa (quando retornam para abastecer, trocar de roupa e pegar dinheiro).

Semana passada chegamos a beirar o recorde de pessoas em nosso pequeno apartamento na Barra de São Miguel – contei 30, entre parentes e aderentes. A casa não teve a sua rotina tão alterada, mas de qualquer forma tivemos que tomar cuidado com o funcionamento das estruturas básicas como banheiro e vasos sanitários. Aliás, resolvi um problema antigo de entupimento das bacias sanitárias pela colocação de objetos estranhos, colocando uma sinalização bastante contundente: favor depositar nos sanitários apenas xixi e cocô – preferível a ter que explicar tudo que não pode ser colocado para descarte.

Aproveitei para confirmar a teoria de que os filhos não nos pertencem – pertencem, na verdade, às suas realidades individuais. Depois fiquei pensando que, se eles não nos pertencem, e não podemos sequer propor um “caminho” para as suas vidas, qual seria o nosso papel como pais de tantas realidades diferentes?

Nessa convivência de “férias branca” descobri um papel fundamental que podemos exercer como pais de uma família com esse tipo de realidade (família numerosa): seria observar bem cada um deles, procurando descobrir suas virtudes e defeitos. Com as virtudes, mas do que nos preocuparmos em exaltá-las – corremos o risco de torná-los vaidosos -, nos alegrarmos porque eles as têm. Quanto aos defeitos, alguns até corrigíveis, e outros que fazem parte da realidade de cada um, resta-nos identificá-los para compreender cada filho e o amarmos com a mesma intensidade, apesar deles – os defeitos. Termina sendo um trabalho de observação e com pouca possibilidade de intervenção.

Aí cabe a pergunta: e qual seria mesmo o nosso papel? Penso que seja o de, identificando essas realidades, procurar estabelecer entre eles (os filhos) um elo que os liguem e os tornem solidários, ao menos uns com os outros.

Marco Mota / Médico cardiologista / E-mail:mota-gomes@uol.com.br

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