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Pais aprendem com os filhos
Cena 1 - Estava me preparando para dar uma rápida saidinha de começo de noite, acompanhado de minha esposa e de minha filha mais velha (ainda bem nova), com destino ao Divina Gula (local de predileção de toda a família há bastante tempo). A minha filha Louise, que assistia aos preparativos, na perspicácia dos seus cinco aninhos, perguntou-me para onde íamos. Na tentativa de desviar o seu comprovado interesse de um assunto que ela já estava totalmente ciente (porque ninguém engana crianças facilmente), falei que ia atender uma paciente. Ela então me disse: "é mentira, painho, porque eu sei que vocês vão para o Divina Gula". Eu, na tentativa de "enrolá-la", desvie do assunto dizendo: "filha, você entendeu mal, é que a paciente se chama dona Divina. Ela engoliu seco as minhas explicações, dando a entender que havia acreditado, e saiu do quarto. Nós seguimos nos preparando e rindo da situação quando, de repente, ela abriu a porta (agora, já chorando e bastante revoltada) e falou bem alto: "olhe, painho, eu odeio mentira e vocês estão me enrolando. Eu sei muito bem para onde vocês vão, e tem mais uma coisa: amanhã eu vou contar para a minha tia da escola que aprendi a mentir com vocês".
Cena 2 - Estivemos fora do Brasil por treze dias e no dia do nosso retorno fui buscá-la na Escola para fazer uma surpresa (e também porque a saudade era bem grande). Saímos para fazer um lanche, dessa feita acompanhado do Lucca e das filhas Anita e Annelise. Ela estava o tempo todo agarrada comigo, dizendo que estava "morrendo de saudade" e que dessa vez a minha viagem tinha sido muito demorada. Num dos momentos em que todos estavam distraídos, e mesmo ocupados em escolher o lanche que desejavam, ela encostou a cabeça perto da minha e me fez uma bela revelação, dizendo: "painho, nesses dias em que você esteve fora eu entrava no seu quarto, pegava a sua fotografia e ficava chorando olhando para você".
Como já aprendi que criança não mente, a não ser quando nós adultos ensinamos, tive a verdadeira noção da profundidade daquela revelação. Aquilo que foi dito era um coisa muito dela, e por isso esperou o momento oportuno, quando todos estavam distraídos com outras motivações, para fazer a importante confidência. Foi como se ela desejasse que aquele sentimento, expresso de forma tão forte, ficasse restrito apenas a nós dois.
O problema, filha, é que os adultos possuem outros defeitos que você ainda não descobriu, não sabemos guardar segredos e resolvi contar para todos que tenho uma filha adorável e sensível, que se não continuar ensinando para ela as coisas erradas, certamente terei no futuro um adulto que, além de não irradiar e propagar a mentira, também será capaz de guardar segredos de sentimentos tão especiais e íntimos.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail: mota-gomes@uol.com.br
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