Tenho andado com o meu coração bastante
inquieto ultimamente. Pensava que, à medida que o tempo fosse
passando, eu ia me acostumando a viver longe de minha filha
Annelise. Mas, como o meu coração não obedece à razão, cada
dia que passa vejo crescer a saudade, deixando-me convencido de
que esse tipo de ruptura provocada pela opção vocacional
religiosa é muito cruel.
Uma vez ela me falou que Deus faz maravilhas
na vida de quem assume viver para Ele e, muito mais, na vida dos
pais que para Ele oferecem seus filhos. Embora me esforçando
para compreender esses desígnios, agradecendo tudo que temos
conquistado, ainda assim me considero perdedor nesse desigual
embate. Por mais que tenhamos recebido, permanece a sensação
de que continuamos perdendo, porque oferecemos a Ele o que de
mais precioso possuíamos (ou pensávamos que era nosso).
De uns tempos para cá, adotei uma
estratégia de todas às vezes atender o telefone (quando ela me
liga) dizendo: filha, sempre que o meu telefone registra a sua
chamada o meu coração se enche de esperança de que você me
diga, pai venha me buscar que já estou de malas prontas. Ela,
sorrindo, me diz do outro lado da linha: "será isso mesmo
que o senhor quer painho, que eu abra mão de minha
felicidade?".
Outra vez, quando lhe falei que rezava todas
as noites pedindo a Deus que ela voltasse para casa, propôs-me
o seguinte: "painho, para Deus não ficar confuso vamos
fazer um acordo, nem você pede mais isso a Deus, e nem tampouco
eu peço a Ele mais força para continuar perseverando nessa
minha vocação. Então, nós dois sairemos do domínio das
forças sobrenaturais, e deixamos a decisão entregue apenas à
nossa própria humanidade".
Não posso aceitar esse seu desafio, minha
filha, e vou continuar rezando. Deus vai entender essa minha
fraqueza. E quem sabe até seja melhor assim, porque se entregar
essa decisão apenas à minha (no momento tão fragilizada)
humanidade, serei capaz de acrescentar a esse meu apelo
"chantagista" uma conotação egoísta e limitada do
tipo: filha, larga tudo, até esse seu desejo de ser feliz, e
volta para casa.
Obs. 1: escrito num guardanapo de bordo, com
o meu coração voando entre São Paulo e Maceió.
Obs.2: No dia de Corpus Christi recebi um
telefonema de minha filha comunicando que estava voltando. Falou
para mim e para a mãe que havia compreendido não ser aquela a
sua vocação, e que ficássemos tranqüilos porque a decisão
não fora movida pelos apelos dos nossos corações, mas pelo
completo entendimento da vontade de Deus.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail: mota-gomes@uol.com.br