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Fico devendo
Em época de gripe H1N1,
está assolando uma tremenda “epidemia” de conjuntivite. Um tipo
estranho, rebelde ao tratamento convencional, que deve estar
movimentando o comércio de colírios, e enchendo de clientes os
consultórios dos oftalmologistas. Na minha família não poupou
ninguém (exceção a Bubú, minha sogra, que continua com uma saúde
irritante – risos).
Acredito que seja viral, mas não tenho certeza, tampouco
competência para dar esse diagnóstico.
Venho tratando a minha, pelas receitas de minha filha Annelise.
O Nairo (oftalmologista familiar), já deve estar cansado da
presença de membros da família em seu consultório. O pior ainda
é que ando pegando carona nas suas receitas. Todas às vezes que
minha filha vai para uma consulta, ligo em seguida para ela no
intuito de saber a conduta para poder atualizar a minha
prescrição. Depois, vou ter que comparecer ao consultório dele
para passar o cartão da UNIMED.
Na segunda-feira não trabalhei. Como havia viajado na
sexta-feira, a agenda que já estava confusa ficou pior ainda. Na
terça-feira (um pouco melhor) resolvi voltar a atender minha
clientela. Como estratégia, para evitar a disseminação do
“vírus”, adotei uma conduta de não cumprimentar aos pacientes
que chegavam.
Foi um dia muito estranho. Um atendimento frio sem o contato de
mãos. Embora repetisse para todos que chegavam que não estava
estendendo as mãos para protegê-los, sempre sobrava (no final do
atendimento) uma mão estendida. Mão estendida sem resposta,
configura uma frieza imperdoável. Um até me disse: “eu pensei
que médico não adoecesse”.
O pior mesmo foi um dos últimos atendimentos de ontem à noite. A
cliente foi uma senhora, que morou na Rua do Sopapo onde nasci.
Um filho dela, amigo de infância que também é meu cliente, a
trouxe para uma consulta de rotina. Estava assintomática nos
seus 90 anos.
Mais do que para uma consulta, ela veio me ver. Desejava saber
como eu estava, e como andavam meus irmãos (os filhos de dona
Anita). Não sabia da morte de meus pais. Foi uma verdadeira
volta ao túnel do tempo. Ela com uma saúde invejável (melhor que
minha sogra, coisa que imaginava impossível). A única coisa que
não andava bem nela era a audição.
Ao chegar, estendeu a mão, e, por mais que eu e seu filho
tentássemos explicar que não iria corresponder àquela atitude,
ficaram sobrando as “mãos estendidas”. Ao examiná-la notei que
seu coração batia apressadamente, sinalizando a emoção de rever
um moleque de rua que se tornou médico.
Na saída, outra tentativa de apertar a minha mão. Dessa vez,
falei alto explicando porque não corresponderia, e agora pareceu
que ela (embora muito triste) tivesse entendido. Finalizei
dizendo-lhe que no retorno, para apresentar os exames, eu lhe
daria um forte abraço. Desta feita fiquei devendo o que ela mais
queria (além da consulta), festejar um reencontro de mais de 50
anos pelo menos com um aperto de mão.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
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