ESQUINA CULTURAL

A festa da presença

Poderia ter sido mais um final de semana marcado pelo compromisso de colocar um terno e comparecer a mais um casamento. Por mais diferente que seja o cerimonial, a ornamentação da Igreja, a indumentária dos convidados, as músicas selecionadas para serem executadas nos momentos importantes, as palavras do celebrante e até mesmo o luxo da recepção, já saímos de casa sabendo de todos os detalhes e pouco nos surpreendemos. Para não ser muito cruel nesta observação, destaco que a emoção de cada casamento é de fato real, e especialmente vivida pelos noivos e familiares (particular emoção).

No entanto, o casamento de Hugo e Paulinha (como carinhosamente ela é tratada por minha filha Annelise) fugiu a essa regra do convencional. Foi, seguramente, a cerimônia de casamento mais original e mais verdadeira que já pude testemunhar. Para quem esteve atento, a presença de um amor maior (para os crentes, uma plenitude daquele tamanho só pode ser justificada pela própria – e especial - presença de Deus) transbordou em todos os detalhes. Deus não comparece a todas as celebrações com aquela intensidade. Ele naquela noite também colocou um terno e uma gravata, e fez questão de comparecer pessoalmente, enfim, era um casamento que fugia ao habitual, era um casamento como poucos. Nas entrelinhas havia um condicionante que deu “tempero” à celebração, mas que foi um simples detalhe porque perturbava apenas aos que como eu assistiam a tudo.
 
Os celebrantes, foram quatro, e não excederam. Seguramente saíram felizes porque confirmaram uma união verdadeira, daquela em que o juramento “...de juntos para sempre, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença...” não foi simplesmente lido, mas assumido e testemunhado previamente.

Paulinha surpreendeu entrando “sozinha” na Igreja. Sozinha afirmo, para quem não a conhece, na verdade aquele foi o momento da festa da presença (presença da ausência), porque a acompanhava em espírito seu pai Edílson, muito responsável pela formação de seu belo caráter e que, fisicamente, esteve ausente.

No final, dispensaram os habituais beijos e abraços e desejaram, dos amigos e dos parentes presentes, algo mais especial do que simples contatos físicos, desejaram receber através da troca de olhares (enquanto deixavam a Igreja) a profunda mensagem de felicidade que todos foram armazenando (dentro de cada coração) durante aquela bela celebração.

Soube depois, que nem compareceram à justa festa sempre oferecida aos convidados, e nem precisavam ter comparecido, porque a verdadeira e sentida ausência é quem faz a festa da presença.

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br

Voltar

Desenvolvido pela Gerência de Tecnologia da SBC - Todos os Direitos Reservados
© Copyright 09/06/2026 | Sociedade Brasileira de Cardiologia |
tecnologia@cardiol.br
 Busca