ESQUINA CULTURAL

Faltando assunto

Estou vivendo uma experiência de recesso branco na Barra de São Miguel. Trabalho firme de segunda a quinta-feira, e descanso (ou me canso mais, indo e vindo dos diversos shows como motorista dos filhos adolescentes) no final de semana prolongado. Posso dizer que a experiência tem sido satisfatória, e dá aquela sensação de estar em férias num local paradisíaco sem fugir do trabalho. Um dos problemas (agradáveis) que vivo nesses dias é de ter uma casa mais cheia que a habitual. Cada filho convida seus amigos e a família (que já é grande) sofre um acréscimo substancial (feira dobrada).

Ultimamente tenho escrito as minhas prosas semanais no domingo, enquanto espero o horário da maré (Barra de São Miguel só tem sentido com maré baixa). Nesse domingo fiquei sentado um bom tempo, com o lap top aberto, esperando que um assunto despertasse o meu interesse. Como as crianças ainda dormiam (tinham chegado do último show com o dia amanhecendo), a casa estava um tanto silenciosa, e como não consigo trabalhar sem barulho (condicionamento circunstancial), comecei a procurar algo para despertar o meu escrito. Liguei a televisão (que me trouxe um pouco de barulho), mas nenhuma motivação adicional. Percorri a internet e, salvo a polêmica sobre se o Ibope teria pesquisado ou não sobre a eleição em segundo turno, sobravam apenas notícias “triviais” sobre violências (de todos os tipos).

Pensei em escrever sobre um fato que vem atormentando as férias na praia da Barra de São Miguel, que são os agradáveis e invejados quadriciclos. Desejei ser voz para os freqüentadores da praia, principalmente as crianças, que agora convivem com mais essa preocupação. Desisti da idéia porque não teria eco os meus reclames, já que tomei conhecimento que os “motoristas” (quase sempre menores de idade) são filhos de pessoas influentes.

Pensei em pedir férias dessa minha atividade semanal (que já virou um compromisso de quase cinco anos), mas talvez frustrasse a uma meia dúzia de leitores que lêem e guardam o que escrevo. Também há sempre o risco de, faltando com o compromisso, a editoria do “O Jornal” perceber que não faço falta e me mandar embora – risos.

De repente, percebo que falta espaço para continuar escrevendo sobre a falta de assunto, e tenho que encerrar a prosa com muito assunto ainda para contar.  

Marco Mota / Médico cardiologista
E-mail: mota-gomes@uol.com.br

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