Depois que publiquei (há duas semanas) uma prosa falando sobre
amizades mais ou menos, eu tive uma interação bastante rica
com um grupo de amigos com os quais partilho tudo que escrevo.
Achei interessante a preocupação de todos eles em saber se
estavam enquadrados entre aqueles que "no final do dia,
pingam duas gotinhas de óleo". Depois das primeiras
insinuações, eu passei a ter o cuidado de fazer uma
observação dizendo para eles que todos fugiam desse padrão de
amigos "mais ou menos" e estavam enquadrados na
categoria de amigos "cem por cento".
Curiosamente, apenas uma amiga recente, a
quem não conheço pessoalmente (amizades internéticas),
resolveu assumir essa condição de ser "mais ou
menos" e justificou dizendo, num e-mail bastante
profundo (apesar de simples), que essas "duas gotinhas de
óleo" que ela vazava no final do dia representavam, na
verdade, a expressão de seus "pequenos" defeitos. Em
seguida, pedia para continuar sendo amiga mesmo sendo desse
jeito.
Voltei a refletir sobre o texto e percebi,
claramente, que o valor da verdadeira amizade reside justamente
na descoberta desses pequenos defeitos e na compreensão deles.
Assim, amigos que muitas vezes classificamos como "cem por
cento", certamente para outras pessoas vazam "essas
duas gotinhas", que podem nem ser observadas por nosso
apaixonado olhar, mas, certamente, serão enxergadas por olhares
sem paixão. Na verdade, elas representam os nossos defeitos e,
como ninguém é perfeito, a conclusão é que todos deixamos
"vazar" alguma coisa no final do dia.
A concepção de amigos "cem por
cento" pode até residir na superficialidade da amizade. As
pessoas com quem mais intensamente dividimos o nosso tempo e a
nossa atenção são as que mais podem observar os nossos
defeitos. Tenho certeza de que para a Inês eu sou um amigo
(além de cúmplice, parceiro e amante), mais ou menos. Não
desejo dizer com isso que ela não sinta e nem corresponda ao
afeto que tenho por ela, mas, seguramente, ela tem a maior
chance de perceber os meus defeitos e, mesmo assim, continua
acreditando e investindo nessa amizade já por mais de trinta e
quatro anos. Com certeza, também os meus filhos, mesmo
demonstrando sempre um imenso carinho por mim, devem continuar
retribuindo esse amor porque se acostumaram com os meus defeitos
e seguiram me amando apesar deles.
Assim, eu desejo avisar a todos os meus
amigos que também "vazo óleo". Para os que já
perceberam esse meu "vazamento", peço compreensão.
Para os que (porventura) ainda não perceberam os meus defeitos
e, por isso, me achavam um amigo "cem por cento",
fiquem atentos para não sentirem frustração ao perceberem que
também sou assim, mais ou menos.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br