ESQUINA CULTURAL
Eu digo NÃO

Estou surpreso com a intensidade (leia-se custos) da propaganda desenvolvida pelos organizadores do Referendo das Armas. Ninguém de sã consciência pode ter uma opinião contrária à disseminação da violência e, por isso, a propaganda que defende a continuidade das vendas não conseguiu arranjar nenhum artista global para a sua defesa. Embora essa não seja a violência maior que assola o país, como a corrupção, a fome e o desemprego, não pode ter o seu valor subestimado. O que não dá é procurar confundir a população com um Plebiscito para criar mais uma lei, num país em que as leis já existentes não são cumpridas.

Gostaria de conhecer a estatística de crimes cometidos com armas registradas. O bandido que na semana passada colocou a arma na cabeça de meu neto, de apenas um ano de idade, e de meus familiares, certamente, não possuía registro daquela arma e, além de não ser preso, não vai descartá-la na próxima esquina, e sim, quem sabe, descarregá-la na cabeça da próxima vítima.

Para sentirmos o tamanho da hipocrisia que irá nos mobilizar para uma votação obrigatória (senão seria um fiasco), vamos apenas citar um outro inimigo que atinge cerca de 28,1% da população brasileira e mata muito mais que todo tipo de violência urbana, incluindo acidentes de trânsito. Não desejo nem apresentar exemplo ligado ao campo da contravenção, que são as drogas ilícitas, simplesmente, faço alusão ao tabaquismo, que acomete e mata aproximadamente 1/5 da população mundial. Por que não se promove um Plebiscito para que a população brasileira diga não a venda de cigarros (considerada nas propagandas oficiais a arma que mais mata os brasileiros)? Primeiro, porque representa uma fatia importante da arrecadação de impostos (embora, esse valor não justifique os custos com as doenças decorrentes desse vício), e segundo, porque existe a certeza de que a proibição apenas reforçaria o comércio clandestino, o que certamente irá acontecer com as armas de fogo. Ainda com uma diferença substancial: nesse caso, continuarão a ser compradas pelos bandidos para assaltarem uma população assustada e desprotegida pelo poder público. Por acreditar na sua inutilidade eu digo NÃO ao próprio Referendo, votando nulo.


Marco Antônio Mota Gomes

Médico cardiologista

E-mail:
mota-gomes@uol.com.br

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