ESQUINA CULTURAL

A ética da fome versus a fome de ética

O resultado das urnas não oferece chance a questionamentos ou indagações. O Presidente Lula foi reeleito com um quantitativo de votos que demonstra a satisfação de 60% da população brasileira com o seu desempenho. É um referendo de peso para um segundo mandato.

Apesar dos Institutos de Pesquisas terem sinalizado para a vitória e também para o seu tamanho (acertaram na mosca), eu sempre me perguntava por onde andavam os eleitores do Lula. Ou as pessoas com quem conversava escondiam essa opção, ou não convivo com essa parte da população que votou nele.

É inquestionável que os programas sociais desenvolvidos pelo Presidente tiveram valor decisivo nesse resultado. Em seus discursos de campanha ele insistiu na tecla de que os pobres estavam comendo mais e a miséria no país estava diminuindo. Não discuto os números porque não tenho intimidade com eles, mas conferindo a votação somos levados a acreditar que este fato é verdadeiro.

Falar de barriga cheia que programas assistencialistas estão equivocados é fácil. Este é o meu caso. No entanto, reparto uma conversa que tive com uma cliente assalariada que atendi num desses dias. Ela contou-me, um tanto revoltada, que uma vizinha havia falado para ela, ao vê-la sair para o trabalho, algo mais ou menos assim: “você é uma idiota saindo para trabalhar, ganhando um salário mínimo. Aqui em casa nós estamos recebendo, um pouco mais do que você ganha trabalhando, do governo para não trabalhar”. Ela me disse que ficou revoltada com a provocação.

É bom lembrar que cerca de 40% dos brasileiros que votaram contra a reeleição do Presidente também tiveram as suas razões. Nas minhas conversas percebi claramente que os problemas éticos enfrentados pelo governo do Presidente Lula era o motivo maior da insatisfação. Os debates do segundo turno não foram suficientes para responder com clareza sobre os questionamentos ligados a corrupção que enxovalharam o governo no primeiro mandato. Falar que a Polícia Federal nunca apurou tanto, não é suficiente para responder sobre a origem do dinheiro do escândalo do mensalão, porque até agora não tivemos um tostão devolvido aos cofres públicos (de onde saíram). Tampouco temos, pelo menos, uma pessoa presa.

Para o Presidente escrever a sua história, num segundo mandato, deve continuar defendendo a ética da fome e da pobreza (estimulando programas sociais que não sejam meramente assistencialistas), mas dando respostas definitivas aos que também se preocupam com as questões éticas.
 
A democracia se constrói resolvendo as questões da pobreza (ética da fome), mas respondendo também aos anseios daqueles que têm fome de ética.

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br

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