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Estica e puxa
Complicada e desafiante essa convivência entre pais e
adolescentes. Num mundo globalizado, em que o conhecimento
circula velozmente e os ambientes contendo informações
diversificadas se ampliam, essa relação se torna cada dia mais
trabalhosa. Exige sempre dos pais algo que está cada dia mais
difícil de ser oferecido, a presença constante. Embora, por
outro lado, se ficássemos mais em casa, essa “presença” não
ampliaria o diálogo porque eles têm múltiplas atividades fora de
casa e, quando em casa permanecem, se escondem em seus quartos
ou por detrás dos seus ipod´s, que possibilitam o mesmo tipo de
isolamento. O diálogo será sempre restrito e a possibilidade de
troca de informações e “conselhos”, também escassa. Lá em casa
ainda tem um agravante (que não sei se em outras casas se
repete), quando eles falam, eu entendo pouco o que eles desejam
me dizer. Parece que utilizam outro idioma como forma de
comunicação, apenas decifrável quando desejam dinheiro ou
autorização para comer sanduíche.
Nesse momento presente, estamos com três adolescentes (para
muitos um já é motivo de preocupação), e tudo que desejamos é
ver essa fase passar. Já aproveitamos de um dos raros momentos
presencial para, em tom de brincadeira, estabelecer que
adolescência em nossa casa seja limitada pela idade, e acabará
sempre aos 18 anos. De nada adiantou essa conversa porque não
existe esse limite de tempo, adolescência é atitude e seu
término exige maturidade.
Nesse desafio educacional, eu e Inês estabelecemos (sem nunca
ter nem conversado sobre isso) um pacto silencioso que
denominamos de “estica e puxa”. Todas as vezes que eles desejam
se lançar nas aventuras mundanas ligam para mim, e eu sempre
digo sim. Caso não esteja por perto, e nem ao alcance do
celular, procuram a mãe que sempre diz não. Então o estica e
puxa na nossa casa funciona assim: eu digo 100% sim, e a Inês
diz 100% não.
O resultado dessa estratégia é que eles deixaram de procurar a
mãe para qualquer permissão e concentraram tudo em mim.
Num primeiro momento a minha decisão de sempre “esticar o
elástico” foi permitindo que os limites também ficassem
restritos. Funcionou mais ou menos assim como se tudo fosse
permitido, e o “pêndulo educacional” (que deve viajar pelas duas
extremidades, mas buscar o equilíbrio) sempre permanecesse no
extremo da “permissividade” (nem tão permissiva, para não
exagerar).
Para o meu caso específico resta uma alternativa: o meu sim a
partir de agora será 50% não, 20% sim, e 30% talvez (quem sabe).
O problema é que não aprendi a “puxar”, e, pelo menos por
enquanto, a Inês abriu mão de sua função. Como podem perceber
estou num beco sem muitas saídas, mas ainda posso determinar o
fim da adolescência por decreto, ou cortar algo que para eles
represente alguma perda (pode ser o sanduíche do final de
noite). Mexendo no voraz apetite deles eu vou aprendendo a
“puxar” o elástico do vai e vem.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
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