ESQUINA CULTURAL
Ainda creio na força do Espírito Santo

Acompanhava pela internet a indicação do novo Papa e, nem sei por que, depois de anunciado o seu nome, comecei a pensar num cidadão, nascido em El Salvador no ano de 1917, ordenado padre em 1940, e Bispo em 1977, chamado Oscar Romero.

Era um religioso tradicional, ligado exclusivamente aos interesses da Igreja, e quando de sua nomeação não representou, para o povo sofrido daquele país, nenhuma esperança de uma atuação contra o regime de força instalado naquela época (a ditadura do General Carlos Humberto Romero).

Havia passado seis anos em Roma convivendo com uma realidade totalmente distinta daquela que iria se defrontar ao retornar a seu país: situação de miséria total, onde apenas dois por cento da população era proprietária de sessenta por cento das terras férteis; altos índices de mortalidade infantil; faltava trabalho, alimento, escola para as crianças, hospitais para atender aos doentes e até água potável.

Dois anos depois de sua nomeação como Bispo, El Salvador entrou numa situação de caos ainda maior e passou a viver um estado de declarada guerra civil. Nesse momento, o Bispo tradicional (mesmo conservador), "à medida que foi sentindo de perto os casos de 'desaparecimento' e de repressão aos mais pobres, também foi sentindo a necessidade de expressar a sua Fé através da solidariedade. Descobriu que a atuação da Igreja cristã só tem sentido se servir ao povo sofrido. Dom Oscar Romero tentou promover entre os salvadorenhos o entendimento e o diálogo, com acordos que só poderiam ter como base a justiça e a verdade". Logo, os poderosos que se alegraram com a sua nomeação, começaram a ficar incomodados com as suas atitudes e passaram a vê-lo como uma ameaça.

Um dia, cercado pelo Exército, enquanto celebrava na Catedral, ele reagiu com uma frase: "Como é mau esse Sistema, capaz de lançar o pobre contra o pobre. O camponês com o uniforme do Exército contra o camponês trabalhador".

Num dossiê enviado à Roma para julgamento pelo "tribunal" denominado de Congregação da Doutrina da Fé (que durante vinte e quatro anos foi dirigido pelo então Cardeal Joseft Ratzinger), foi acusado, por quatro Bispos "amigos" seus, de estar se envolvendo com a Teologia da Libertação. Foi rotulado de subversivo, e acusado de estar usando a imagem de Jesus Cristo como um simples revolucionário. Nessa ocasião, o Monsenhor Rocardo Uriouste, amigo do já Arcebispo, declarou: "Romero, tenho certeza, não lera nenhum livro de Teologia da Libertação. Leu sim, a Bíblia, o evangelho e os documentos do Magistério da Igreja. Tinha o coração para os pobres e aprendia na realidade".

Na tarde de 24 de março de 1980, enquanto celebrava a missa na Capela do Hospital da Divina Providência, no meio da oração eucarística, um homem encapuzado, a mando de um grupo do alto comando do Exército, o assassinou com tiros de fuzil.

"O sangue do sacerdote que dedicou a sua vida e a sua Fé na defesa dos explorados e oprimidos, misturou-se com o vinho, como um memorial do sangue de Cristo".

Lembrando da vida, da trajetória e, principalmente, da "passagem" de Dom Oscar Romero é que afirmo: ainda creio na força e no poder do Espírito Santo.

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista

E-mail: mota-gomes@uol.com.br

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