Há bastante tempo que observo, numa esquina perto de minha
casa, logo no início da noite, a presença de uma pessoa
esperando por alguma coisa. Digo esperando, porque tenho certeza
de que, até agora, o "esperado" ainda não apareceu.
Fica sempre postado perto do meio-fio e, nas pontas dos dedos,
num curioso equilíbrio, espicha a cabeça, sempre para a
esquerda, como se o "desejado" pudesse surgir dessa
direção. Se sair de casa perto das seis horas da noite, já o
encontro e, se retornar antes das dez, ainda o encontro, na
mesma posição (em atitude de espera).
Já tive vontade de parar e perguntar o quê,
ou por quem, tanto espera mas, como não o conheço, fico
temeroso de receber uma resposta indelicada, embora merecida.
Mas, já começo a admirar a sua determinação e capacidade de
esperar, embora não saiba o quê e nem mesmo se por quem.
Tenho refletido na atitude daquele, nem sei
se morador de meu bairro, que a vida deve ser assim, movida pela
expectativa de se esperar algum acontecimento que pode ser, para
muitos, a única e possível motivação. Tenho aprendido que na
vida não podemos dispensar essa ilusão de estar esperando por
algo, que pode até ser a notícia da filha que está fora, a
nota do colégio dos que estão por perto, a confirmação de
uma viagem de trabalho, o feriado prolongado, o final do mês
para receber o salário já comprometido com gastos antecipados,
as férias, o final de semana, a noite para o descanso e mesmo
um novo dia para o trabalho.
Volto a minha curiosidade para o sentido da
espera do anônimo "inquilino da esquina de meu
bairro". Pode ser um amor não revelado que passa de vez em
quando, sempre à noite, pelo mesmo local; mas, como o seu
"passar" não tem hora e nem dia certo, ele, para não
perder a chance, comparece todos os dias, chega sempre cedo e
só vai embora depois de sua passagem (se ocorrer); pode ser que
seja apenas o desejo de ter por quem esperar e, como não
concretiza esse seu desejo, espera todas as noites mesmo sabendo
que não espera por ninguém e nem por nada. Para não perder a
chance de um dia deixar passar a pessoa idealizada pelos
próprios sonhos, não falta nenhum dia, para que a oportunidade
não se perca, se houver.
Quem sabe até ele nem tenha o desejo do
sonho e, para não perder a esperança e a paixão, espera todos
os dias, simplesmente para não perder o hábito de esperar,
ainda que não saiba por quê ou nem mesmo por quem.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br