ESQUINA CULTURAL
Um Escritor De Méritos

*José Medeiros

Recentemente, me perguntaram como conheci o escritor e médico Moacyr Scliar, autor de mais de 70 obras literárias publicadas e membro da Academia Brasileira de Letras. – Numa Bienal Internacional do Livro, respondi. Nas Bienais há locais apropriados para conversas entre autores e leitores, são os chamados "salões de idéias" ou "cafés literários", nos quais os escritores dialogam com as pessoas presentes.

Enquanto aguardava a chegada do palestrante, uma pessoa, a meu lado, com nítido sotaque sulista, relatou-me um fato, no mínimo, curioso. A eleição de Moacyr Scliar para a Academia Brasileira de Letras foi precedida por uma ruidosa escolha popular no Rio Grande do Sul. Durante meses os meios de comunicação desencadearam campanha para que ele formalizasse sua candidatura à Academia. Scliar, relutava, não era esse o seu objetivo imediato. Foi organizada uma eleição popular, na qual a maioria dos gaúchos decidiu que ele deveria ser candidato à Academia Brasileira de Letras. Ainda havia ressentimentos generalizados porque o poeta Mario Quintana – considerado um gênio da poesia rio grandense – por três vezes postulara a Academia e perdera a eleição.

Disse a meu vizinho, que a escolha, por unanimidade, desse mestre do romance e do conto para a ABL, deveu-se a méritos pessoais. É autor de obras literárias de reconhecido valor, uma dezena delas traduzidas em outros idiomas.

A conversa parou naquele momento. O palestrante acabara de entrar no recinto, aplaudido, de pé, por leitores e admiradores. Com boa presença de espírito e ótima comunicação, explicou que não pretendia fazer uma palestra formal, apenas manter um diálogo com os presentes, troca de idéias, bate-papo sobre assuntos de interesse do público.

Sua primeira afirmação: "Escolhi a profissão de médico, porque tinha medo de doença. Não tinha medo de ficar doente, mas quando meus pais adoeciam, eu entrava em pânico. O único jeito de vencer esse medo era enfrentando a doença – através da medicina. Que foi, aliás, uma fonte de inspiração para a literatura. Muitas de minhas histórias têm personagens médicos".

Indagado se o orgulho e a vaidade não lhe haviam subido à cabeça, depois de tantos prêmios literários alcançados e a Academia Brasileira de Letras conquistada, por unanimidade, respondeu: "Cada vez que eu me acho muito Moacyr – com esse reconhecimento público que me envaidece – lembro-me de que fui simplesmente "Nico" (meu apelido), um menino pobre do bairro judeu de Porto Alegre; e, aí, a humildade volta imediatamente".

(*) é médico e ex-Secretário de Educação e de Saúde

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