ESQUINA CULTURAL
"Gostaria de estar equivocado"

Semana passada, num final de mais um dia de trabalho, depois que estive reunido com meus alunos fazendo uma espécie de treino de apronto para o início do Projeto Corações do Brasil (o maior Estudo Epidemiológico acontecido no Brasil, e que Maceió será uma das cidades sede), encontrei na saída um ex-aluno, agora professor e quase doutor. Ficamos conversando sobre o tempo novo que a UNCISAL está vivendo, e disse para ele estar muito feliz com o “clima” reinante, que observo como bastante positivo. Uma Escola que já pode ser considerada velha (mais de 30 anos), mas que se revigora através de uma nova geração de alunos e professores brilhantes e qualificados. Depois de realizar um concurso público que possibilitou o ingresso de mais de cem professores, e juntando a experiência dos “velhos”, entre os quais já me incluo, estamos com um plantel de muito gabarito construindo esse tempo novo na “velha” Instituição.

Tinha sido um dia especial, porque toda a comunidade o havia utilizado para discutir o novo Estatuto, que depois de aprovado servirá para orientar o caminho a ser percorrido daqui para frente. Foi uma ampla discussão, que aconteceu depois de meses de muito trabalho de uma abnegada equipe, que tratou de sua elaboração no sentido de oferecer um formato moderno e democrático à futura Universidade de Ciências da Saúde de Alagoas. A antiga e tradicional Escola de Ciências Médicas de Alagoas cresceu e se multiplicou, dando origem a mais três Faculdades (Fonoaudiologia, Fisioterapia e Terapia Ocupacional). Daí a necessidade de se discutir com a sua comunidade um novo Estatuto. Posso dizer que foi um dia glorioso e histórico, mas, uma decisão tomada, na minha modesta e despretensiosa opinião, pode de certa forma ser danosa para a vida futura da Instituição, se não for repensada.

Para comentar essa decisão, gostaria de saída dizer que não tenho mais nenhuma pretensão de galgar nenhum posto dentro da UNCISAL. Como ex-aluno da ECMAL, tive o privilégio de ser seu Diretor num momento de muita dificuldade, e ousar, naquele momento, abrindo Vestibular para três novos Cursos, hoje transformados em Faculdades. Tudo o que pretendo apenas é continuar contribuindo com o seu desenvolvimento e desejando que o seu futuro não se construa com equívocos. 

Aonde desejo chegar com essa conversa? Um dos pontos estabelecidos por votação foi que para ser Reitor da futura Universidade o pretendente tem que ser Doutor. Acho que isso é reducionismo antidemocrático, porque impede que pessoas capacitadas e disponíveis alimentem esse desejo. O fato de se galgar a posição de Doutor não qualifica ninguém para dirigir uma Universidade. Pode ser até que no futuro possamos sonhar em um Doutoramento em Administração Universitária (o que já vem acontecendo nas Universidades Americanas), mas não entendo, por exemplo, como um Doutoramento em Cardiologia pudesse me qualificar para ser Reitor. Exigência essa dispensada para o cargo de Presidente da República ou mesmo de Ministro da Educação (e da Cultura).

Não sei se de fato essa é uma decisão definitiva, não participei da Assembléia e nem acompanhei a votação, apenas tomei conhecimento do fato. Por isso, espero de coração estar equivocado.

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista

E-mail: mota-gomes@uol.com.br

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