ESQUINA CULTURAL
Entre sem bater

Uma placa com esses dizeres anotados mantive pregada em minha porta quando fui Diretor da antiga (porém sempre viva e atual) Escola de Ciências Médicas de Alagoas. Ela (a placa) de certa forma marcou o meu estilo de exercer o poder compartilhado. Muitas vezes chegava para trabalhar e, ao abrir a porta, verificava que outras pessoas, atendendo ao convite expresso na placa, já haviam chegado antes de mim e estavam trabalhando em algum projeto de interesse da Escola, usando o espaço que me era destinado como Diretor, mas que, de repente, virou mesmo uma espécie de praça, onde todos, livremente, entravam e saiam sem pedir licença. Pedia desculpas, porque também entrava sem bater, dava meia volta, e saia feliz para procurar outro local para trabalhar.
 
Dizer que esse seria o estilo ideal de trabalhar para quem está temporariamente exercendo o poder (porque dirige alguma coisa) pode ser exagero, mas celebro ainda hoje, nos corredores da Instituição, alguns frutos positivos dessa forma pessoal de lidar com o poder. O retorno mais positivo que colho diariamente é a forma carinhosa como sou tratado por aqueles que à época eram dirigidos por mim. É natural que, mesmo sem limitar qualquer pessoa a “entrar sem bater”, existam algumas que nunca visitaram a minha sala e sintam antipatia por mim. A arte de dirigir não permite a unanimidade. Muitas vezes somos obrigados a tomar decisões que nos colocam de um lado ou de outro e, por conta disso, também vamos amealhando intrigas e divergências.

Lembrei-me da placa da minha porta, recentemente, ao tentar ter acesso a uma outra porta, de determinada autoridade, e esbarrar nas dificuldades de vários interlocutores, para quem tive que, além de me anunciar, explicar detalhadamente os motivos de minha visita. A minha ida não tinha como finalidade pedir nada, mas apenas comunicar uma atividade que seria desenvolvida, de puro interesse da comunidade.
 
Depois de longo período de espera, aproveitei de um breve descuido da secretária e escapei por outra porta onde tinha uma placa com um dizer mais significativo do que o de minha sala, saída. Por onde saí sem me abater.

 

Marco Mota / Médico cardiologista
E-mail: mota-gomes@uol.com.br

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