ESQUINA CULTURAL

Ensina-me a viver

Foi paixão à primeira vista. Desde o primeiro minuto que o vi soube que ele era o cara da minha vida. Era naturalmente mais velho do que eu. Mas isto não impediu a enorme amizade e cumplicidade entre nós. Tinha um modo muito peculiar de viver a vida. Fui sua pupila predileta. Passei com nota dez!
 
Era pra cima, um otimista inveterado. Pra ele, o copo estava sempre meio cheio, jamais meio vazio. Sabia que o maior tesouro era viver a vida. Intensamente. Verdadeiramente. Mergulhar com tudo! Sem medo de ser feliz!

Quando jovem, foi “duro” de doer. Não tinha um tostão furado. Morava no Catumbi com a família numerosa, trabalhava muito mas não perdia uma noitada. Naquela época o charme era os rapazes vestirem ternos brancos de panamá, uma fazenda sedosa, deslizante ao toque e com um brilho próprio. Conseguiu ter seu terno de panamá, e como não dispensava um baile a roupa freqüentava a tinturaria quase todos os dias.
 
Exímio bailarino, ensinou-me a dançar. Eu ficava tonta, de tanto rodar (e de tanta admiração). Era meu ídolo! Ele dançava com ginga e um enorme prazer em cada passo. Eu rodopiava no salão até perder o fôlego. Meus cabelos esvoaçando no ar. Literalmente voava em seus braços. Tinha uma elegância de fazer inveja a muita gente. Mesmo depois de incorporar uma interessante protuberância abdominal – que negava, claro! - mantinha o mesmo charme de sempre. Era único, imbatível! Seu carisma, simpatia e largo sorriso inundavam a alma de quem estivesse por perto.

Foi meu maior incentivador. Em tudo!

Em minhas desastrosas incursões culinárias – o coitado era minha cobaia – ele sempre arranjava um jeito de encontrar uma qualidade em cada bolo solado ou pudim desandado. Fazia me sentir uma verdadeira chef de cozinha. Ele era assim. Sempre estimulando, fazendo vibrar, jogando pra cima. Quando decidi desbravar o mundo, deu-me força. Na hora da despedida enxugou minhas lágrimas e disse-me que era hora de colocar em prática tudo que me havia ensinado. Eu precisava conhecer o que havia de melhor: a vida!

Um dia, ficou muito doente mas nem a enfermidade o derrubava. Seu otimismo equilibrava as situações imprevisíveis. Tudo ficaria bem.
 
Quando ouvia a notícia da morte de alguém, sempre dizia:

- Coitado, mas antes ele do que eu!
 
No hospital, já muito enfermo, chamou-me no quarto e pediu-me que olhasse pela janela. Disse-me então que eu nunca deixasse de perceber e sentir o brilho e o calor do sol. Que jamais perdesse o foco da vida! Nem o brilho do olhar. Nem a gargalhada solta e autêntica. E que me molhasse na chuva, brincasse nas poças d’água e sentisse o cheiro da grama. E, que desse continuidade à sua missão: viver com toda intensidade e passar esta herança de amor à vida aos meus filhos.
 
Ele havia vivido a vida da forma que escolhera viver. Agora iria conhecer algumas novidades do lado de lá. Os amigos e familiares o estavam esperando para um joguinho de pôquer... Era hora de festa no céu!

Ele se foi e eu fiquei aqui, com esta preciosa herança e uma imensurável saudade do meu pai.
 

Rachel Bassan
 

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