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Enroladinho que nem
Por falta de opção, no primeiro
domingo do ano e, por isso, num dia em que todo mundo resolve
ficar em casa (também por falta de outras opções – quase tudo
fechado – até as lojas que abrem 24 horas), decidi deitar e
esperar para ver e ouvir mais uma entrevista de nosso
Presidente.
De tão desinteressante que
estava, acho que dormi antes do primeiro intervalo (depois soube
que houve apenas um). Apenas posso dizer que gostei de ver o
nosso presidente impecavelmente vestido com um belo terno, uma
bela gravata, barba bem feita, configurando uma imagem bastante
colorida, que era completada por um leve sorriso amarelo.
Dia seguinte almoçava com a
minha família (e alguns aderentes parentes – risos), e o assunto
era (ainda, nem sei por quê) a repercussão da entrevista. Ouvi,
de um sobrinho, a revelação de que ficara frustrado com as
respostas evasivas de nosso Presidente. A qualquer pergunta que
o repórter fazia, ele escapava com comentários positivos sobre o
comportamento da economia em seu governo. Aos atos de corrupção,
chamava simplesmente de erros de seu Partido; quando o repórter
falou de provas, ele preferiu chamar de indícios; quando o
repórter perguntou se sabia de alguma coisa sobre o ocorrido,
ele confessou que nem sabia o que acontecia no segundo e nem no
quarto andar do Palácio – quer dizer imagine saber se tomaria
conhecimento do que estava acontecendo com o País (que ele
comentou ser grande demais para ser governado); ficou enrolado
quando se disse contra a reeleição e que ainda não se decidiu se
será candidato; e por fim que não podia condenar o Zé Dirceu
enquanto não aparecerem as provas, mas não teve como justificar
a sua demissão e seu afastamento do governo.
Em síntese, nada de novo nas
cansadas e enfadonhas palavras de nosso Presidente. A frustração
geral fica por conta da esperança não consumada, mas sempre
renovada em cada entrevista, de que o Presidente resolva
confessar. Enquanto isso não acontece, ele vai ficando como
aquela personagem do Programa Zorra Total, que a gente deseja
ver sem a toalha – enroladinho, mas com quase tudo de fora.
Marco Mota /
Médico cardiologista
E-mail: mota-gomes@uol.com.br
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