Na década de 60, e, nessa época, eu dirigia o Sanatório General Severiano da Fonseca, quando recebi telefonema do dirigente do Serviço Nacional de Tuberculose: - "Medeiros, você já pensou em transformar o Sanatório, que só trata de tuberculose, num hospital geral? Em vários Estados, essa idéia vem sendo trabalhada: metade dos leitos são destinados à tuberculose e o restante a especialidades de clínica médica". Acrescentou: "pelas estatísticas de que dispomos, a tuberculose está em declínio e a enfermidade poderá ser erradicada dentro de 20 anos". Não contive o assombro, diante dessa informação surpreendente. No dia seguinte, reuni os médicos do Sanatório que relutaram em aceitar a transformação, mas, posteriormente, acataram os argumentos oficiais. Entretanto, o período de transição para alcançar um outro modelo hospitalar foi bastante longo.
Uma radical mudança, pois, até então, eram mantidos cerca de 160 doentes internados, muitos deles irrecuperáveis, remanescentes de uma época anterior ao aparecimento da estreptomicina e da hidrazida. Essas medicações fizeram verdadeiros "milagres" na cura dessa afecção. Tão extraordinário foi esse efeito, que levou à euforia de que a enfermidade seria debelada; daí por diante, restava somente controlar os novos infectados. O tempo mostrou que essas esperanças não corresponderam aos fatos. Muitos doentes melhoravam, rapidamente, mas abandonavam o tratamento, e, ao voltar, os remédios já não faziam o mesmo efeito, criando as famosas "resistências". Viravam doentes crônicos, sem possibilidades de cura. No campo social, as condições agravantes de pobreza, miséria, e ausência de educação sanitária, contribuíram para manter bem vivo esse quadro infeccioso.
No dia 24 de março, que é, atualmente, consagrado como "Dia Mundial de Combate à Tuberculose", eu me encontrava, em Recife, e assisti à passeata dos funcionários da Secretaria de Saúde, que conduziam faixas e distribuíam folhetos explicativos sobre a doença. Uma das faixas era bem sugestiva: Tuberculose tem cura. Entretanto, os números que constavam nos folhetos distribuídos mostravam números preocupantes. Vejamos, alguns: "1 a 2% da população brasileira adoece, anualmente, dessa moléstia. Em Recife, de cada 100 mil habitantes, 100 contraem a doença". No final do texto, um outro dado lastimável: "Pernambuco tem 4500 novos casos de tuberculose por ano".
Não disponho de números oficiais da incidência da tuberculose, em Alagoas. Entretanto, as estatísticas não devem ser muito diferentes, das reveladas no Estado vizinho. Reconheça-se, o esforço das autoridades sanitárias locais e de todos os que se dedicam ao combate desse terrível mal.
Há dois anos, o Brasil foi duramente criticado em simpósio realizado na Espanha, por não cumprir metas estabelecidas internacionalmente para controle dessa endemia. O fato teve muita repercussão e o governo federal comprometeu-se em ampliar esforços para atenuar a desvantajosa situação. Prometeu uma ação sanitária mais eficaz e utilizar a mídia - de maneira mais efetiva - veiculando ensinamentos de como evitar as contaminações. O Ministério da Saúde dispõe de preciosos espaços no rádio e na televisão que podem ser mais bem aproveitados.
Será que essa "velha doença", conhecida desde a antiguidade, constitui destino inexorável e irreversível com a qual teremos sempre de conviver? Continua dizimando a população e desafiando os avanços e as conquistas da Medicina.
José Medeiros*
(*) É médico e ex-Secretário de Educação e de Saúde.