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Emulsão de eucalipto Essa semana fiz um repentino mergulho nas minhas reminiscências e fui muito fundo no pensamento, cheguei a mergulhar nas transparentes e mesmo cristalinas águas do Rio Catolé. Os mais jovens podem até conhecer esse nome, mas jamais terão idéia do que significava um dia de piquenique num balneário (acho que público) que recebia esse emblemático nome.
Não era privilégio de muitos, porque o Catolé era cedido às famílias que tinham reserva de um dia em média por ano. Esses convites eram muito disputados e, para a nossa família, quem os conseguia era o nosso tio Germano. Lembro-me, como se fosse hoje, das muitas viagens que fazíamos (algumas numa carroceria de caminhão, que naquele tempo era permitido), e, da viagem, o mais emocionante era a descida da ladeira do Catolé, naquela época ainda sem asfalto. O perigo de suas fechadas curvas era vencido logo na descida, pela visão da entrada do balneário onde havia uma corrente, que só podia ser aberta depois da devida conferência do passe, previamente fornecido. Vem à minha memória o tio Germano descendo da boleia e chamando o "primo", que era uma espécie de caseiro que fazia a vigilância e a guarda daquele valioso patrimônio ecológico.
Um dia no Catolé não podia ser contado apenas a partir do momento da entrada no balneário, e sim, durante toda a semana de preparativos, e principalmente pela expectativa da noite anterior, quando a ansiedade era tamanha que não nos permitia nem dormir. Chegar até lá levava algumas horas (coisa que hoje podemos fazer em poucos minutos), e isso prolongava toda a ansiedade.
No entanto, o momento de chegada era tão glorioso que o meu coração batia aceleradamente até o caminhão estacionar completamente e poder correr ao encontro do rio. Esse primeiro momento era tão inebriante que ficou como uma imagem perene na minha retina. A visão daquele rio limpo e sereno nos esperando, e a maravilhosa orquestra composta por uma variedade de pássaros, só era quebrada pelo barulho do primeiro mergulho. O som produzido pelo primeiro a pular também ficou bem guardado na minha memória.
Dali para a frente era o céu de festejos. Saíamos da água apenas para comer, e muitas vezes nem para isso, porque formando o rio uma piscina natural e de água corrente era habitado por pequenos peixes já acostumados com aqueles tipos de visitantes e faziam a festa com as migalhas que deixávamos cair.
O resto do dia ficava por conta de brincadeiras saudáveis e muito carinho dos pais, tios, primos e amigos que compunham o grupo. A comida era posta em comum e os diversos temperos eram experimentados por todos.
De ruim, apenas um momento, quando o tio Germano chegava já pronto e dizia: vamos que o dia já está ficando escuro e temos que voltar para Maceió. A turma toda ficava naquela de dar o último mergulho, e isso ainda levava alguns bons momentos.
Lembrar essas coisas parece até atitudes de quem está ficando velho, e até concordo com quem assim pensar, mas também embute o desejo de repartir com os mais jovens algumas situações simples de convívio familiar num ambiente, para mim, inesquecível.
Sabem por que me lembrei disso só agora, porque recentemente senti o cheiro do rio Catolé. É isso mesmo, o rio tinha um cheirinho próprio que era dado pelas folhas de eucalipto que caiam em suas águas e ficavam como numa emulsão preparando o banho dos que chegavam aos domingos como eu. O cheiro estava guardado em meu subconsciente e adormecido por quase quarenta anos, mas era tão deliciosamente forte que um simples estímulo superficial, vindo tanto tempo depois, foi capaz de despertar toda a emoção de um dia de domingo no Catolé.
Nota: essa prosa, que mais parece uma redação escolar de final de férias, é, na verdade, expressão de um forte desejo de resgatar a personalidade de um tio querido, que escondia na rudeza de palavras e gestos as atitudes sensíveis e doces de seu "amolecido coração".
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail: mota-gomes@uol.com.br
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