ESQUINA CULTURAL
Ecos de uma campanha eleitoral

Com a escolha definitiva do novo prefeito fico à vontade para comentar alguns aspectos interessantes desse último processo eleitoral. Temos motivos para comemorar, como por exemplo, a eficiência do TRE com a implantação das famosas e não isentas urnas eletrônicas. Apenas perde em rapidez na divulgação dos resultados para as chatas pesquisas de boca de urna. Gostava mais do tempo em que tínhamos que acompanhar a disputa urna por urna, seção por seção e zona por zona. A divulgação dessas pesquisas instantâneas tira todo o tesão de seguir acompanhando o resultado do pleito, embora, em raríssimas situações, aconteçam resultados diferentes dos projetados. Nunca fui consultado por nenhum Instituto de Pesquisa, mas se um dia for acho que vou mentir numa tentativa de descaracterizar esse tipo de informação que atrapalha a emoção de sentir os votos saindo de cada urna.

Desejo ressaltar dois fatos que me chamaram à atenção nesses últimos dias de campanha em Maceió. O primeiro, foi ouvir no guia eleitoral o Presidente da República pedindo voto para determinado candidato. Até aí tudo bem (afirmam os entendidos), ele é também um cidadão comum, e pode exercer a sua cidadania política (se bem que em São Paulo fez o mesmo durante um ato oficial, por isso, foi multado, e o mais grave, mandou um advogado da União fazer a sua defesa). No entanto, não entendi e tampouco gostei, quando ele disse que se tal candidato fosse eleito as portas do governo federal estariam abertas para qualquer solicitação que viesse dele. Pelo que entendi, se o candidato eleito fosse o outro (como foi), as portas do governo federal estariam fechadas. Que confusão danada Presidente, o senhor está confundindo a pátria para a qual foi escolhido para presidir por quatro anos com o seu partido, ou pior, com partidos que mesmo não sendo o seu podem ser de seu interesse nas famosas arrumações políticas. O prefeito eleito desde domingo é de todos os maceioenses, e eles não podem ser punidos porque, democraticamente, não seguiram à sua recomendação.

O segundo, foi o momento do decisivo (pelo menos para mim) debate. Confesso que estava em dúvidas em quem votar, e dediquei o tempo do debate para tomar a minha decisão. Nunca pensei em assistir uma coisa tão degradante e deprimente. Por mais que, nervosa, a jornalista tentasse dizer que aquele momento era para se discutir idéias e planos de governo para Maceió, os dois candidatos insistiam em fazer acusações mútuas, transformando o debate num ato deplorável que nada acrescentou ao processo democrático. Foi de um nível tão baixo, que pensei em pedir que os meus filhos menores saíssem da sala, acho até que a censura deveria tê-lo proibido para menores de dezoito anos.

O único ponto positivo, de um debate tão mesquinho, foi que não houve espaço nem para promessas mentirosas, daquelas que depois de eleito o candidato faz questão de esquecer. Para mim, pelo menos serviu para que tomasse a decisão adequada, que não revelo porque voto deve ser secreto, até quando branco ou nulo.

Penso (logo insisto) que a legislação eleitoral deveria ser mais exigente com respeito à postura dos candidatos. Colocar na discussão política a vida pessoal e familiar dos concorrentes em nada interessa aos eleitores, e deveria ser punido com a cassação do registro. Direito de reposta, apenas para reparos nas propostas. Para acusações levianas e trocas de "gentilezas", a lei deveria ser mais rigorosa. Por enquanto, a população vai reagindo como pode, e os votos brancos e nulos somados ao total de abstenções podem representar os "ecos" mais indicativos de indignação.

Ao prefeito eleito fica o desafio de "arrombar" as portas do governo federal que, segundo o Presidente da República, só estariam abertas para o candidato derrotado.

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista

E-mail: mota-gomes@uol.com.br

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