ESQUINA CULTURAL
Ainda tenho uma dúvida

Lendo o belo artigo escrito pelo Cônego Henrique Soares da Costa na coluna "Opinião" da semana passada, além de ter aprendido de forma contundente a versão real da morte de Jesus, tive o pensamento despertado para esse fato inconteste de que a "Paixão de Cristo" não foi um fato acontecido há dois mil anos, continua acontecendo no dia-a-dia da nossa conturbada civilização, espelhada nos atos de violência, desrespeito, corrupção e, principalmente, indiferença e omissão.

Li, no passado, um artigo escrito por um importante teólogo latino-americano (já falecido) chamado Juan Luis Segundo, que trata da morte de Jesus, e usa um termo que não é comum ser empregado por outras pessoas quando tratam dessa mesma temática. Ele fala no "assassinato de Jesus", diferente de morte que parece sempre alguma coisa mais ligada ao natural. Ele fala sempre de um Jesus que na verdade foi também homem (não brincou de ser) e, mesmo sendo também um Deus, não se utilizou dessa condição de divindade para se proteger de seus algozes.

Não assisti (ainda) o filme do Mel Gibson, mas, pelo que pude ler até agora, ele procura chamar a atenção da humanidade para o sofrimento de um Deus que desejou tanto ser homem que, mesmo nos momentos de maiores provações, não quis abrir mão dessa opção. O filme parece que choca (também) pelas cenas de brutalidade, que dão à Paixão muito mais um caráter de assassinato do que de morte, embora ambas possam desejar parecer a mesma coisa e não o são.

Depois de ler com atenção, e por mais de uma vez, o referido artigo, permaneci apenas com uma dúvida: se Jesus (como Deus) sempre teve consciência de tudo que ia acontecer e, ainda assim, permitiu que tudo acontecesse, respeitando a liberdade do homem de proceder diferente (se desejasse), Ele deve ter experimentado de, pelo menos, um "fio" de esperança num desfecho diferente no destino da humanidade. Se a Paixão continua acontecendo todos os dias e os culpados pela morte de Cristo somos todos nós (judeus, pagãos e discípulos), pergunto: esse Deus dos cristãos devia ser chamado de Deus do amor ou da tolerância? Ou Deus do amor tolerante? Ou simplesmente, Deus da Esperança (que é sinônimo da ilimitada tolerância do amor)?

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br

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