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As duas orelhas do presidente
“Essas vaias podem ser de outra classe, sufocada entre os ricos
que estão ganhando muito dinheiro com o atual governo (palavra
do presidente) e os ‘embolsa-votos-família’ da vida”.
Ninguém gostar de receber vaias, muito menos um presidente que
tem quase 50% de aprovação, conforme demonstrado nesta última
pesquisa divulgada. Quem sabe, por isto, ele tenha se irritado e
proferido comentários impróprios e perigosos.
Depois de apupado novamente (mesmo sem ter comparecido) durante
a cerimônia de encerramento do PAN, e logo depois, num evento de
lançamento do PAC (são tantas siglas, que muitas vezes me
confundo), ele reagiu, dizendo: “Deus foi muito feliz quando
criou o homem com duas orelhas. Uma serve para ouvir os aplausos
e a outra para escutar as vaias”.
Completando o discurso, ele discorreu sobre algumas coisas que
merecem ser comentadas e refletidas. Ele falou que as vaias eram
provenientes dos ricos (nunca vi rico em beira de estrada
esperando autoridade para vaiar), e que eles não tinham o
direito de vaiar porque em seu governo foram (eles, os ricos)
quem mais ganharam dinheiro. Olhando o lucro de quatro bilhões
que o Bradesco teve apenas no primeiro semestre de 2007, até que
dá para concordar com o presidente. Apenas não compreendo porque
o Bradesco poderia deslocar “militantes” até Cuiabá, com a
finalidade de vaiá-lo. Além deste aspecto, não soa bem aos meus
ouvidos (minhas orelhas) essa tentativa de separar o país em
classes (ricos e pobres), até porque, no meu pensamento, essas
vaias podem ser até de outra classe, que tem discernimento para
perceber desvios éticos e está sufocada entre os ricos que estão
ganhando muito dinheiro com o atual governo (palavra do
presidente) e os “embolsa-votos-família” da vida.
Também falou (até ameaçou, dizendo que: “todos sabem que nisso
eu sou bom”), que, se desejasse, colocaria na rua um batalhão de
pessoas (certamente para aplaudir a sua passagem). Eu entendi
que se essas pessoas que insistem em vaiá-lo persistissem nessa
idéia, colocaria o seu “exército” de adeptos para um confronto.
E ainda saiu com uma ameaça descabida, de que ninguém se engane
que a democracia ainda é a melhor forma de convivência pacífica,
porque o que vem depois dela é sempre pior. Confesso que não
entendi bem esse recado, senhor presidente. O que virá depois? A
ditadura do proletariado (com essa nem o senhor se acostumaria
mais, ela já não faz parte de seu ideal revolucionário), ou a do
tipo Hugo Chávez?
O que eu lastimo mesmo, senhor presidente, é que, às vezes, duas
orelhas não sejam suficientes para captar o que o ruído das
vaias quer dizer. O seu governo, mesmo beneficiado por uma
economia estável em todo o mundo, não foi capaz de dar respostas
satisfatórias para muitos problemas (entre eles, esse de deixar
os ricos mais ricos), especialmente, para as questões éticas (de
roubo mesmo), que vão aparecendo em cada escândalo envolvendo
seus amigos e os vários órgãos de seu governo.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
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