ESQUINA CULTURAL
Dona Silvana nem sei de quê

Com respeito ao conceito de santidade, muitas vezes cometemos um equívoco e emitimos um falso preconceito. O equívoco é pensar que a pessoa santa deve sempre ter características de uma bondade pública e um modo de viver um tanto recatado e, por isso, afastado da realidade. Parece que santidade requer um tipo de espiritualidade especial que seja identificada simplesmente ao olhar. O falso preconceito é de que para "virar" santo, basta morrer. Parece que quando uma pessoa morre esquecemos todos os seus defeitos e ressaltamos apenas as suas virtudes, de maneira que ainda não encontrei nenhum morto totalmente ruim. Até penso que esse preconceito pode estar ligado à certeza de um Deus que é pai e que sempre num julgamento final (se houver), nunca vai abandonar o filho.

Jamais poderíamos imaginar uma santa funcionária pública, em quem se enxergue essas características de santidade, pelo seu comportamento competente e ético.

Conheci uma pessoa que, tenho certeza, cumpriu essas exigências para conquistar um lugar no céu (se houver). Convivemos mais de perto quando assumi a direção da Escola de Ciências Médicas. Trabalhou comigo como secretária de gabinete, mas entendia de tudo que se passava com a Instituição e, quando eu tinha dúvidas sobre o que estava se passando, recorria à sua experiência. Quando me afastei da Escola para presidir o Pólo Saúde da Família, levei-a e fiz questão de colocar a secretaria executiva com assento no Conselho. Tinha certeza de seu valor e, por isso, desejei-a como o único elemento não renovável naquela estrutura.

Lembro-me de duas coisas marcantes em nosso relacionamento: Uma vez, estava despachando um monte de processos e, enquanto assinava, conversava com outra pessoa; de repente, ela me argüiu: "Dr. Marco, não é bom o senhor ler o que está assinando? Tomei um susto, passei o olho no documento e vi que não era nada importante. Refeito do susto provocado pelo alerta, eu sorri e disse para ela: "Tenho certeza de que você nunca vai colocar para assinar nada que não possa ser assinado e, se algum dia eu tiver assinado alguma coisa errada, será você mesma quem vai conserta". Posso testemunhar que alguns equívocos cometidos no trato das coisas públicas foram depois corrigidos por ela, mesmo depois que deixei a presidência do Pólo.

A outra coisa que também tenho presente em minha memória é o teor da conversa que mantínhamos nas poucas vezes em que nos encontrávamos. Eu tinha o hábito de dar-lhe um beijo na testa e dizer sempre baixinho: "Esteja preparada, porque se algum dia eu virar alguma autoridade você vai comigo para onde eu for". Ela ria e dizia, de pronto: "e vou mesmo".

Amiga Silvana, você resolveu ir embora antes de seu amigo virar autoridade. Chegava de uma viagem, pela madrugada, quando fui avisado de sua precoce partida. De imediato, veio-me à lembrança pedir ao Edílson (também amigo) para lhe receber no céu.

Certamente, agora vocês devem estar preparando uma reunião da câmara técnica e atualizando as conversas. Seus amigos do antigo Pólo não comparecerão, por enquanto, a essa reunião; assim, não passem lista de chamada.

A sua partida atualiza o conceito de santidade no serviço público, aliando-o a lealdade, competência, responsabilidade e prudência, dona Silvana nem sei de quê.

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br

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