Com respeito ao conceito de santidade, muitas vezes cometemos um
equívoco e emitimos um falso preconceito. O equívoco é pensar
que a pessoa santa deve sempre ter características de uma
bondade pública e um modo de viver um tanto recatado e, por
isso, afastado da realidade. Parece que santidade requer um tipo
de espiritualidade especial que seja identificada simplesmente
ao olhar. O falso preconceito é de que para "virar"
santo, basta morrer. Parece que quando uma pessoa morre
esquecemos todos os seus defeitos e ressaltamos apenas as suas
virtudes, de maneira que ainda não encontrei nenhum morto
totalmente ruim. Até penso que esse preconceito pode estar
ligado à certeza de um Deus que é pai e que sempre num
julgamento final (se houver), nunca vai abandonar o filho.
Jamais poderíamos imaginar uma santa
funcionária pública, em quem se enxergue essas
características de santidade, pelo seu comportamento competente
e ético.
Conheci uma pessoa que, tenho certeza,
cumpriu essas exigências para conquistar um lugar no céu (se
houver). Convivemos mais de perto quando assumi a direção da
Escola de Ciências Médicas. Trabalhou comigo como secretária
de gabinete, mas entendia de tudo que se passava com a
Instituição e, quando eu tinha dúvidas sobre o que estava se
passando, recorria à sua experiência. Quando me afastei da
Escola para presidir o Pólo Saúde da Família, levei-a e fiz
questão de colocar a secretaria executiva com assento no
Conselho. Tinha certeza de seu valor e, por isso, desejei-a como
o único elemento não renovável naquela estrutura.
Lembro-me de duas coisas marcantes em nosso
relacionamento: Uma vez, estava despachando um monte de
processos e, enquanto assinava, conversava com outra pessoa; de
repente, ela me argüiu: "Dr. Marco, não é bom o senhor
ler o que está assinando? Tomei um susto, passei o olho no
documento e vi que não era nada importante. Refeito do susto
provocado pelo alerta, eu sorri e disse para ela: "Tenho
certeza de que você nunca vai colocar para assinar nada que
não possa ser assinado e, se algum dia eu tiver assinado alguma
coisa errada, será você mesma quem vai conserta". Posso
testemunhar que alguns equívocos cometidos no trato das coisas
públicas foram depois corrigidos por ela, mesmo depois que
deixei a presidência do Pólo.
A outra coisa que também tenho presente em
minha memória é o teor da conversa que mantínhamos nas poucas
vezes em que nos encontrávamos. Eu tinha o hábito de dar-lhe
um beijo na testa e dizer sempre baixinho: "Esteja
preparada, porque se algum dia eu virar alguma autoridade você
vai comigo para onde eu for". Ela ria e dizia, de pronto:
"e vou mesmo".
Amiga Silvana, você resolveu ir embora antes
de seu amigo virar autoridade. Chegava de uma viagem, pela
madrugada, quando fui avisado de sua precoce partida. De
imediato, veio-me à lembrança pedir ao Edílson (também
amigo) para lhe receber no céu.
Certamente, agora vocês devem estar
preparando uma reunião da câmara técnica e atualizando as
conversas. Seus amigos do antigo Pólo não comparecerão, por
enquanto, a essa reunião; assim, não passem lista de chamada.
A sua partida atualiza o conceito de
santidade no serviço público, aliando-o a lealdade,
competência, responsabilidade e prudência, dona Silvana nem
sei de quê.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br