ESQUINA CULTURAL

Dois presentes, duas presenças

Início de mais um ano. Para alguns tempo de férias, e para outros tempo de rever atividades e construir agendas. Como, nesse ano que começa, não programei férias para os meses costumeiros, que corresponde ao período de recesso escolar, estou mais enquadrado nessa segunda situação.
 

Nos dois casos, no entanto, não podemos dispensar uma avaliação do nosso comportamento no ano que findou. Um olhar sobre os acontecimentos do ano que passou nos ajuda a perceber se evoluímos como pessoas. Devemos para isso buscar sinais simples, porém concretos, de como fomos vistos pelo outro. No nosso caso específico, temos uma possibilidade especial, que representa a avaliação sincera dos pacientes com os quais nos encontramos.

Nesse meu mergulho nas recordações do ano que passou me defronto com duas situações especiais nas quais os presentes lembram afeto e carinho: o primeiro foi trazido por uma cliente que sofreu há alguns anos um derrame cerebral. Como seqüela ficou com uma hemiplegia (paralisia de um lado – no caso, o esquerdo). Nesse Natal ela me presenteou com um bordado feito com a ajuda da mão paralisada, onde está estampada a oração de São Francisco de Assis. Disse-me que levou cerca de três meses para concluir o trabalho; o segundo presente recebi no último dia de trabalho do ano que passou. Foi uma bela caixa decorada, contendo biscoitos, trazida por uma outra cliente (a que divide comigo a carga de um sapotizeiro todos os anos). É claro que adorei os biscoitos, mas o significado do presente foi mesmo a embalagem. Disse-me que levou duas horas para fazer os biscoitos, e uma semana para preparar a caixa. A filha, que a acompanhava na consulta, me contou que ela ficou muito estressada com receio que não tivesse tempo de terminar a caixa até o dia da consulta.

Refletindo sobre o significado dos dois presentes recebidos tenho a sensação de que o ano valeu a pena. Sentir-se amado com a intensidade de merecer dias de atenção de duas clientes especiais foi para mim um sinalizador de que cresci um pouco na minha relação com os meus clientes. A eles devoto o meu esforço em oferecer sempre um conhecimento atualizado, e deles recebo sinais como esses que me ajudam a crescer como pessoa. Muito mais que simples presentes eles me dedicaram afeto e presença.

Marco Mota / Médico cardiologista
E-mail: mota-gomes@uol.com.br

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