ESQUINA CULTURAL

Doce como os sapotis

A vida, especialmente a de médicos, é marcada por encontros e reencontros diários, mas também por desencontros e desenlaces. O saldo é sempre positivo porque de cada experiência, mesmo as negativas, fica o aprendizado. Os desenlaces são os mais cruéis, denotam que a vida (em confronto permanente) vai perdendo essa inexorável batalha, promovendo ausências que representam a vitória da morte.
 
Na sexta-feira passada, recebi um telefonema (indesejável, embora previsível) de um jovem colega cirurgião, participando-me o falecimento de uma cliente amiga. Ele estava bastante emocionado e dizia-me pelo telefone que, apesar de tê-la conhecido há apenas uma semana, havia desenvolvido um carinho muito grande por ela. Disse-lhe então: “imagine o que representa essa notícia para mim, que já desfruto de sua amizade há muitos anos”.
 
Aprendi a gostar dela pelos lindos versos e salmos que de vez em quando recitava para mim durante as consultas. Nada vinha fora do contexto, tudo tinha sintonia com o momento presente e surgia como uma sinalização do carinho que mantínhamos um pelo outro. Em cada visita uma surpresa, ou me levava deliciosos biscoitos feitos com adoçante e muito carinho (mais carinho do que adoçante), ou me levava licores feitos das frutas mais exóticas possíveis, tipo a Jabuticaba. Certa feita escrevi sobre uma outra cliente que havia cometido umas “imprudências” para me presentear com um licor dessa fruta e ela (um tanto enciumada) apressou-se em fazer logo um litro de licor da mesma fruta para não “perder” a disputa. Ao entregar-me o presente, ainda disse sorrindo: “vamos ver quem faz o melhor licor”.

No Natal passado levou-me os biscoitos (que fazia em duas horas) dentro de uma bela caixa de embalagem que levou mais de uma semana preparando-a. Era uma verdadeira obra de arte. Comi os biscoitos, e a embalagem tenho guardada até hoje, porque representou todo o amor e toda a dedicação que ela me dispensava.

Como se tudo isso não bastasse, ainda dividia comigo a carga de um sapotizeiro que, periodicamente, mandava a sua filha me levar os frutos lá na Clínica. Recebi a notícia de seu internamento junto com uma porção de belos sapotis. Aproveitei para lhe enviar um bilhete escrito do próprio punho (porque tinha certeza de que lhe faria bem), procurando lhe dar força e entusiasmo para enfrentar a temível e já tão postergada cirurgia, mas confesso-lhe Dona Jezer, que tive um pressentimento de que aquele bilhete era também de despedida. No final eu escrevi “de brincadeira” que tudo correria bem, até porque eu não poderia abrir mão dos seus doces e deliciosos sapotis.
 
Minha amiga, até posso ainda recebê-los de presente, mas acho que os sapotis não serão mais os mesmos, perderam a sua doçura.

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br

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