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Um dia como outro qualquer
Escrevo este texto ilhado entre o dia do Professor e o do
Médico. O ilhado, que poderia representar uma situação de
isolamento ou separação, na verdade representa apenas que
escolhi escrever entre o dia 15 e o dia 18 de outubro.
Ontem à noite durante uma reunião de meu grupo de reflexão, que
estava quase morrendo mas ressuscitou depois de umas comidinhas
gostosas oferecidas pela anfitriã (a Viven), pensei em
aproveitar um relato de um colega plantonista de um hospital de
emergência em Recife (situação bem diferente da de Maceió,
será?) para repartir com os meus leitores uma realidade pouco
conhecida de uma profissão que ainda encanta a maioria dos
jovens.
O texto me fora enviado pela Viven, mas depois de lido devo
tê-lo deletado de minha caixa de mensagens. Pedi então que ela
me reenviasse no dia seguinte. Ela, prontamente, me sinalizou
que não haveria problema porque tinha todas as correspondências
catalogadas por envio. No entanto, no dia seguinte me mandou um
e-mail com um pedido de desculpas porque não havia encontrado o
texto, mas anexou outros dois que embora não tendo a descrição
exata do que desejaria retratar também serviram como inspiração.
Neste relato está contido todo o clamor de um jovem que sonhou
com uma profissão que mistura carisma e sacerdócio e encontrou o
inferno: “sou um médico, de 28 anos, fiz residência, fiz
concurso público, orgulho da família e empolgado com a minha
profissão. Sempre estudando, me atualizando, planejando fazer
mestrado e doutorado, ter uma família, sustentar os filhos, ser
feliz. Enfim, como qualquer brasileiro, procurar o seu lugar ao
sol. Amo o que faço, não sei fazer outra coisa, mas quase morro
de espanto quando, hoje, percebi que trabalho numa franquia do
inferno”.
Um outro amigo, que mora em São Paulo, recentemente me
presenteou com um CD pirata – risos - que registra a passagem de
Vinícius de Morais na casa da Amália Rodrigues em Portugal no
ano de 1968. No início da gravação ele confessa ser um cidadão
sem pátria (estava vivendo o exílio), mas ainda assim
arriscou-se a enviar uma mensagem aos seus irmãos portugueses. É
um texto para ser ouvido várias vezes porque mistura poesia com
verdades não ditas, mas embute uma mensagem definitiva que se
ajusta aos meus jovens colegas médicos, especialmente aos que me
tomaram como padrinho (formandos de 2007 da Faculdade de
Medicina da UNCISAL). Ele ensina aos patrícios com três palavras
a única maneira de vencer as adversidades daquela época: “rompam
as amarras”.
Para mim, que já completo 34 anos de profissão, “romper amarras”
apenas significa que não há mais tempo, do meu exílio não há
mais resgate. Mas para os jovens que começam a sua carreira de
medicina nesse tempo presente as amarras que devem ser vencidas
começam pela rejeição ao subemprego e ao trabalho quase escravo
nos “infernos” da desumanidade e da insalubridade.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
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