ESQUINA CULTURAL
De volta ao mundo real

Melhor do que escrever sobre as coisas que estão acontecendo é refletir sobre os comentários que recebo depois que escrevo. Muitos deles aprovando os comentários feitos sobre esse ou aquele assunto, outros tecendo críticas e mesmo fazendo acusações de partidarismo e parcialidade, e os melhores são os que me ajudam a interiorizar a idéia principal do tema, transportando-me para o mundo real, onde tudo acontece.

Essa passagem de nossa percepção do macro, onde tudo que acontece está inserido na política, tendo culpados conhecidos, para o espaço micro do nosso próprio mundo é bastante propícia ao aprofundamento prático das questões suscitadas como relevantes e imperiosas. Considero um bom exercício sempre que realizarmos uma crítica a alguma situação, logo em seguida fazermos uma pergunta, que não pode ser assim: e se eu estivesse no lugar daquela pessoa que exerce essa ou aquela função pública, como me comportaria? A pergunta deve ser essa: na minha situação concreta, como cidadão, como é que eu me coloco diante dessa mesma situação aplicada ao meu mundo específico? Essa pergunta é decisiva porque a resposta depende apenas de mim. Eu não preciso negociar com ninguém a sua aprovação e tampouco o que eu decidir fazer vai interferir na vida de outras pessoas, que nada têm que ver com essa minha história.

Deixando agora de embromação, aonde desejo chegar com essa conversa? Numa de minhas prosas, comentei sobre a atitude do Presidente Lula faltando com a palavra ao trabalhador assalariado, quando ofereceu um reajuste ridículo sobre o mínimo dos salários. Continuo pensando que esse reajuste foi descabido, embora tenha até entendido que razões de ordem maior ajudaram-no a tomar uma decisão difícil como essa. Nenhum dirigente, de nenhum país do mundo, gostaria de tomar atitudes impopulares, e essa de apenas cobrir parte da inflação, sem praticamente nenhum ganho, foi uma delas.

Num dos e-mails que recebi, uma leitora falou sobre o reajuste do salário mínimo, tratou do óbvio dizendo que esse valor mínimo significava que ninguém devia, depois de um mês de trabalho suado, receber uma quantia menor que essa. Ao mesmo tempo, não proibia os empregadores de fazerem justiça aos seus empregados, oferecendo correções superiores ao mínimo projetado. No final, ela me pergunta: "quanto o senhor vai pagar à sua empregada doméstica, depois desse reajuste? Vai cumprir rigorosamente o estabelecido pelo Presidente Lula ou vai dar um reajuste diferençado?".

Boa pergunta, amiga leitora, porque me trouxe de volta ao meu mundo real, onde a decisão de ir além do Presidente é, apenas e exclusivamente, minha.

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br

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