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Marco, o que quer dizer Deus?
Lá pelos idos de 1994, ou melhor, no final do século passado (soa estranho pertencer a dois séculos), fomos eleitos (eu e minha esposa), numa disputadíssima eleição realizada na Guatemala, presidentes latino-americano do Movimento Familiar Cristão. Falo disputadíssima, porque o resultado de 6 a 4 revelou, muito mais do que uma simples preferência por um país (o Brasil), a opção por uma teologia inserida e comprometida com as realidades sociais que defendíamos, ao contrário do que a outra candidatura, de um casal argentino defensor de uma teologia mais espiritualista e de obediência cega às orientações provindas de Roma.
Durante a liturgia de abertura da Assembléia distribuímos com os participantes a letra de uma música para ser cantada em português. Ao final, um casal colombiano que estava ao nosso lado me interpelou dizendo: Marco, o que quer dizer Deus? De saída fiquei sem entender, mas logo compreendi ser apenas uma questão semântica ligada a diferença de idioma, e, por isso, ele não entendia que o Deus contido na letra da música que acabara de cantar era o mesmo Dios dele.
Lembro-me dessa história tanto tempo depois, porque na semana passada em meu grupo de reflexão vi-me numa situação parecida. Parecida, mas diferente, porque alguns amigos desejavam na verdade saber o seguinte: "Marco, finalmente o que é Deus para você?".
Como não tenho (ainda) uma clareza total sobre a resposta a ser dada, prefiro pensar Deus da seguinte maneira:
a) Como um referencial de valores que me permitem saber quando ajo certo ou errado, mas que não me impede de "andar", diária e permanentemente, visitando esses dois pólos tão contraditórios;
b) Como uma fonte amorosa, que existe dentro de mim, impulsionando o meu desenvolvimento relacional com o meio ambiente e com todos os seres;
c) Como uma força potencial que propõe sempre o meu crescimento como homem e respeita às minhas indecisões;
d) Como uma mãe (o cerne de meu Deus é totalmente feminino), que intui e antecipa os meus erros e acertos, mas, que me deixa construir o meu próprio destino;
e) Enfim, o meu Deus é liberdade, abstrato e neutro, e não se mistura com nenhum acontecimento humano, tampouco natural.
Respondendo hoje esse mesmo questionamento (surgido no século passado) a partir da pergunta do casal colombiano, talvez lhe dissesse: Olha, acho que Deus é Deus mesmo. Dios para mim pode ser outra coisa. Ou mesmo, Deus pode até nem ser Deus mesmo, como Dios também pode para muitos (em seu próprio idioma) significar coisa diferente.
Porque, propositalmente, concluo de forma tão confusa (até fugindo de meu estilo simples de escrever): descobri que muito melhor do que ter total clareza de Deus pode ser essa percepção de que para cada um (ser irrepetível, antes da clonagem) Ele deseja mostrar-SE diferente, revelando-Se de conformidade com as nossas limitações e necessidades. Amém!
Obs.: ainda penso que: se cada um de nós soubesse exatamente quem é, ou mesmo, o que é Deus, não levava a vida procurando por Ele. Já O tinha encontrado e o mundo seria, pelo menos, diferente. Amém outra vez.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail: mota-gomes@uol.com.br
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