ESQUINA CULTURAL
DESTINO BIOLÓGICO

José Medeiros*

Outro dia, numa reunião médica, discutia-se a dor física, o sofrimento, a dor psíquica e moral, e, ao mesmo tempo, como foi possível, no passado, realizar cirurgias sem anestesia. Nesse período, extrair um dente era um problema sério e retirar uma bala alojada nos tecidos exigia uma garrafa e meia de boa cachaça ou de uísque.

Um dos colegas presentes levantou a hipótese de que foi Deus quem criou a anestesia, no momento em que retirou uma costela de Adão para criar a primeira mulher; certamente, fez Adão ficar anestesiado. Como esse tema envolve aspectos religiosos e fatos científicos da evolução, desviei a conversa para nos fixarmos nos problemas das dores e sofrimentos humanos; dores físicas e psíquicas.

Não são poucas as pessoas portadoras de dores crônicas na cabeça e na coluna; em relação aos mais idosos, brinca-se dizendo que estão na idade do condor (com dor, dói aqui, dói acolá...). Muitas pessoas carregam analgésicos na bolsa e os tomam, diariamente. Desde a mais longínqua antigüidade o homem vem se dedicando ao alívio das dores. Mas apesar de todas as conquistas da ciência, certas dores crônicas são problemas de difícil diagnóstico e tratamento.

A conversa resvalou para os aspectos psicológicos dos estresses e dos dramas do cotidiano influindo nas reações corporais. Há "dores psíquicas" decorrentes de sentimentos de pesar, motivadas pela morte de um ente querido. Um dos colegas explicou que a morte de uma pessoa amada, desenvolve uma grande quantidade de emoções e mudanças na vida psíquica. A duração desse estado depende da intensidade da relação de afetividade, de ternura e de amor dedicados à pessoa falecida. São acontecimentos que deixam queimaduras íntimas e recordações que causam sofrimento.

Em versos memoráveis, o poeta Mário Quintana descreveu o cruel destino biológico do ser humano, culminado com a morte. Diz: "Minha morte nasceu quando eu nasci. / Despertou, balbuciou, cresceu comigo..."/.

A vida é uma promissória de prazo definido que se vai descontando ao longo do tempo, é o que se diz. É a tragédia da condição humana, na fragilidade do ser e na consciência da rapidez como decorre a existência. Falecimentos que ocorrem muito cedo, na flor da juventude, na maturidade produtiva, ou de pessoas queridas na idade avançada, causam dores e traumas que extrapolam imaginadas dimensões.

Lágrimas expressam emoções, saudades, tristezas e angústias. Há lembranças que somente o tempo desbota e atenua; o tempo é o lenitivo para as chagas do coração.

(*) é médico e ex-Secretário de Educação e de Saúde

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