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O destino da senhora
Quem sabe seja até um sinal de alienação, mas devo confessar que estou ficando “noveleiro”. Desde o final de “Celebridade” que havia prometido a mim mesmo não mais me interessar pelas adoráveis novelas das oito. No entanto, foi bastante assistir um capítulo para ser dominado pela vontade de seguir acompanhando a sina da Maria do Carmo, obcecada pelo desejo de reencontrar a filha perdida (ou melhor, roubada). Seria capaz de jurar que esse era um segredo para ser desvendado apenas nos últimos capítulos, e que a Nazaré ia assassinando a todos que se aproximassem de seu maior segredo (como já acontecera com dois personagens). Pela natural lógica, a próxima vítima seria a “filha” Cláudia.
Num dos capítulos, o autor chegou até a apresentar a possível arma, no caso uma tesoura. Já deu para perceber que estou totalmente por dentro do assunto, pois quando perco algum capítulo, porque estou viajando, acesso os resumos pela Internet – risos.
De repente, a grande surpresa. Ainda no início da trama novelesca o maior mistério é desvendado. O jornalista Dirceu consegue as informações tão esperadas e leva Maria do Carmo à presença de sua tão procurada e desejada filha. Não esperava esse desfecho tão cedo, mas logo entendi porque o autor preferiu que fosse assim: Maria do Carmo procurava Lindalva e, na verdade, encontrou Izabel.
Mais uma vez ficou demonstrado que o amor transcende à biologia. Mais uma vez ficou demonstrado que o amor materno é, na essência, unidirecional. A mãe não tem outra chance, ama desde o início e a recompensa (se é que de amor se deve esperar isso) pelo amor incondicional será fruto de uma árdua e lenta conquista (nem sempre exitosa), assim é a vida. Amor fora do contexto da maternidade e da paternidade é sempre fruto de conquista. O único amor que imaginamos ter essência biológica é aquele que vem de pai e mãe. Lindalva vai entender todo o drama de sua mãe biológica, mas jamais terá o seu amor pela nefasta Nazaré abalado (a não ser que o autor deseje, de forma artificial, esse tipo de desfecho). Essa história imita a vida real, como naquele caso do Pedrinho, e quem sabe tenha sido motivado por ele.
Um outro aspecto curioso e relevante (nem sempre as novelas são totalmente alienantes e nocivas) está afeto a ética que regulamenta o tipo de amor desenvolvido entre os “verdadeiros” irmãos de sangue. A não ser por motivos doentios, o amor que surge com a força da sexualidade tem um bloqueio ético numa relação entre irmãos, independentes de suas origens biológicas. Um irmão não se apaixona pelo outro, alimentado por esse tipo de desejo ou paixão. É um amor fraternal de solidariedade e compromisso mútuo, mas que não é capaz de gerar qualquer tipo de atração física. Por outro lado, irmãos biológicos são capazes de se apaixonar um pelo outro num simples olhar – do tipo amor à primeira vista, se desconhecem suas origens. Quase que tivemos nessa novela um beijo entre Izabel (a Lindalva) e o Leandro, quando ele estava fragilizado e sofrendo com as “dores de cotovelo”. Soaria estranho para os expectadores esse tipo de relação, mas ela seria totalmente possível. Irmãos de sangue que desconhecem esse fato regulam-se por um código ético diferente.
O mais estranho ainda é que esse tipo de amor à primeira vista não poderia nunca acontecer entre a filha e a mãe. Izabel jamais corresponderia ao amor de Maria do Carmo à primeira vista (e nem à segunda vista, acredito). Fico pensando que amor à primeira vista deve ser alguma coisa que necessita de um ponto de partida em condições de igualdade e tem que ter atração física. Não permite que um lado já esteja apaixonado (e Maria do Carmo ama a filha mesmo antes dela nascer). Por isso, a não ser que o autor insista no surrealismo, acredito que não será feliz “o destino da senhora”.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
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