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Santa desobediência Fiquei um bom tempo olhando a foto da Irmã Dorothy Mae Stang, americana naturalizada brasileira, estendida no chão (de barro vermelho), vitimada por seis tiros deflagrados por grileiros e posseiros no sudoeste do Pará, na cidade de Anapu. Toda violência por si só já é grande e repugnante, mas essa, cometida contra uma religiosa de 73 anos, foi exagerada (se assim podemos classificar a violência máxima). Até parece que o desejo não foi apenas de matar a indefesa, porém valente e audaciosa, "freirinha", mas de avisar a todos os outros religiosos que se aventuram nessa mesma causa, que existe "munição" sobrando para todos. A pergunta que me fiz, olhando para aquela foto, foi: qual o pecado cometido por Irmã Dorothy para merecer tão trágico fim (ou glorioso começo)? Pelo pouco que sei de sua história, ela trocou uma vida segura e tranqüila de Ohio, uma cidade americana, para viver um desafio movido pela vocação, atendendo aos apelos que Deus fez ao seu coração, decidindo defender a vida de pessoas simples e da própria natureza. Depois, refleti que o pecado maior dela pode nem ter sido esse, mas, na verdade, desobedecer ao que a linha dura do Vaticano preconiza há alguns anos: de que os padres e religiosos devem se preocupar mesmo é com o lado espiritual das pessoas. Então, para muitos que estão satisfeitos com esse rumo tomado pela Igreja Católica, nesses últimos dez anos, embora consternados ainda são capazes de dizer que lugar de padre e de freiras é mesmo dentro da Igreja (onde estarão sempre mais protegidos). Pensando assim, a Irmã Dorothy morreu mesmo foi de teimosia (como diria o Severino).
Paradoxalmente, a sensação que tive depois de refletir a situação, ainda com o olhar fixo na brutal e comovente foto, foi de alegria, ao perceber que ainda existem pessoas que colocam esse desejo de servir acima dos dogmas, dos apelos e mesmo das orientações ortodoxas que possam ter recebido. Como fiquei orgulhoso da forma como morreu essa "freirinha", semelhante a um general num campo de batalha, cheirando a terra que leva o nome de sua pastoral, embora com a crueldade de não ter se dado a ela nem o direito de defesa (foi uma morte de tocaia encomendada, por gente covarde e cheia de dinheiro, a pistoleiros sem alma).
Senti saudade da época em que a Igreja do Brasil teve voz e eco. Da época em que sabíamos de cor o nome de muitos Bispos que quebraram a dicotomia do corpo e da alma, do céu e do inferno, do espiritual e do material, criando uma teologia que inseria Deus na realidade das pessoas. Teologia essa que foi totalmente sufocada pela linha dura do Vaticano, que pôs o Papa a viajar pelo mundo, ficando livre para executar esse frio plano conservador de voltar a Igreja (novamente) para dentro dela mesmo. No momento atual, esse mesmo "clero" se aproveita da doença, e mesmo da velhice de um Papa carismático, para continuar ditando os rumos da Igreja Católica no mundo.
Recentemente ouvi de Dom Paulo Evaristo Arns uma frase em que dizia: "seria muito interessante que o Papa renunciasse para que a Igreja pudesse acompanhar o desenvolvimento da história". Quem sabe até, o Espírito Santo "soprasse" forte de novo e nos devolvesse um João XXIII. Nessa nova história que se desenvolveria, a desobediência de Irmã Dorothy seria com certeza uma Santa desobediência.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail: mota-gomes@uol.com.br
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