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Uso racional para os desfibriladores
Desejo falar outra vez de um assunto que foi moda no ano velho, mas que atravessará o calendário. A discussão iniciada (ou mesmo trazida à tona mais uma vez) depois da morte de alguns atletas de forma súbita, pode resultar numa orientação de política pública, no mínimo, inadequada. Desejo aproveitar esse início de ano para falar (também mais uma vez) desse assunto, mas numa ótica um pouco diferente. O correto não é falarmos de morte súbita e sim de morte cardiovascular. Morte súbita é o desfecho (sempre final) de, quase sempre, um distúrbio cardiovascular não diagnosticado precocemente e, principalmente, não evitado, através de medidas adequadas, oriundas de uma prevenção primária.
No Brasil, a cada dois minutos, morre uma pessoa de doença cardiovascular, o que significa cerca de trinta mortes numa hora, setecentas e vinte mortes num dia, vinte e uma mil e seiscentas mortes num mês e um total de duzentas e cinqüenta e nove mil e duzentas mortes por ano. Desse total de mortes, cerca de vinte por cento são mortes súbitas que ocorrem como desfecho final de um problema cardiovascular (que podia ser evitado ou mesmo tratado); cerca de dez por cento pode ser evitada se ocorrer em ambiente hospitalar devidamente equipado e com equipe de suporte à vida treinada e competente.
Esse total de morte cardiovascular pode ser radicalmente reduzido através de uma política pública competente (e conseqüente), que conseguir diagnosticar, tratar e controlar a hipertensão arterial. Nos Estados Unidos, um programa governamental que aumentou o controle da hipertensão de dez para trinta e quatro por cento, em trinta anos, conseguiu reduzir o impacto da morte cardiovascular em cerca de trezentas mil mortes a menos por ano. Lá, é justo que também se pense em investir nos programas de suporte à vida com investimentos de vulto em treinamento e tecnologia para ressuscitação cardiopulmonar.
O Brasil ainda não sabe quantos hipertensos possui (estima-se uma prevalência de vinte e dois por cento da população adulta), quantos fazem tratamento e, principalmente, desses, quantos estão sob controle. Então, a despeito da relevância do tema - morte súbita - penso que temos coisas mais básicas para ser alvo da preocupação por parte do setor público.
Falo sobre isso, porque tenho conhecimento da força da indústria de equipamentos, e um lobby forte junto ao Congresso Nacional pode forçar o Ministério da Saúde a jogar fora alguns bilhões de reais num programa de prevenção de morte súbita, que implica na compra de caros desfibriladores e em treinamentos de equipes de suporte à vida. Não que ache que isso seja desnecessário, qualquer programa que possa salvar, ainda que seja uma vida, será sempre importante. O problema é que alguns míseros milhões de reais, se empregados em programas que visem a detecção e o controle da hipertensão e do diabetes, poderão evitar milhares de mortes cardiovasculares.
Então, penso (logo insisto) que a melhor política para o uso racional dos desfibriladores, no momento, talvez seja verificar o devido funcionamento deles nos locais onde já existem, porque muitas vezes, não conseguem funcionar quando a morte de forma súbita acontece.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail: mota-gomes@uol.com.br
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