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Desejo de ir e vontade de ficar
“O importante é que os encontros determinem, sempre, despedidas
que valham a pena (afetuosamente doloridas e profundamente
sentidas)”
Estamos recebendo Inesinha (filha de número seis) de volta à
nossa casa. Foi um longo ano de ausência, quando ela aproveitou
para estudar em outro país e desenvolver novas amizades.
Nesta última semana, conversamos bastante por telefone e pela
Internet. Transcrevo um dos últimos textos, quando ela me pedia
ajuda para enfrentar uma situação bastante previsível de
acontecer por conhecer bem suas reações. Ela dizia o seguinte:
“pai, agora que o momento de voltar se aproxima, fico feliz
porque daqui a pouco estarei chegando. No entanto, a tristeza de
ir embora tem aumentado tanto que muitas vezes me dá vontade de
ficar. O senhor tem como explicar o que fazemos neste momento,
além de chorar?”.
Respondi-lhe o seguinte: “filha, esse é o melhor sentimento que
a gente pode experimentar – desejo de ir e vontade de ficar.
Parece que nessa hora chorar é a melhor forma de expressar as
duas coisas ao mesmo tempo. Sei que a sua família provisória
(que a acolheu por um ano, especialmente sua mãe, que virou sua
companheira), sentirá bastante a sua falta e vice-versa. Assim é
a vida, marcada sempre por encontros e despedidas. O importante
é que os encontros determinem, sempre, despedidas que valham a
pena (afetuosamente doloridas e profundamente sentidas). Seria
muito trágico e desinteressante se você passasse um ano
convivendo com outra família e, no momento da volta, sentisse
apenas a alegria de voltar. Esse não seria um sentimento
compatível com a sua formação e sua espiritualidade. Assim,
filha, parece que chorar, nesse caso, é o melhor remédio.
Lembre-se (como consolo) que sua família, que ficou um ano
curtindo sua ausência, se alegra com seu retorno e vai ajudá-la
a viver essa nova fase de readaptação. Qualquer dia você volta
para umas férias, ou, quem sabe, mesmo para seguir estudando. O
futuro é sempre algo que será ainda escrito e cheio de
novidades. Para pessoas, como você, que experimentam esse
sentimento ambíguo de alegria e tristeza, o ‘voltar’ será sempre
uma possibilidade (mais que um desejo), porque o caminho para
esse ‘voltar’ você já construiu na ambigüidade do desejo de ir e
vontade ficar”.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
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