ESQUINA CULTURAL

De que lado estamos?

A Revista Veja que circula esta semana apresenta na reportagem de páginas amarelas uma entrevista com o Secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, o gaúcho José Mariano Beltrame. A tese principal defendida por ele é que está diante de um desafio sem solução a curto e médio prazo, e que a resposta para a violência nos grandes centros urbanos não virá de discursos acadêmicos, mas como uma atitude concreta da própria sociedade. Numa das suas citações lembra o fato de um indivíduo rico que sai de uma festa depois de ter consumido cocaína e descobre que seu luxuoso automóvel foi roubado. Revoltado, vai à delegacia reclamar de seus direitos de cidadão sem fazer a conexão de que o roubo de seu veículo foi justamente realizado por quadrilhas de traficantes com a finalidade de “desmanche” para que a venda das peças seja utilizada para comprar novas drogas, que depois serão revendidas a ele mesmo. Alimentando assim o ciclo cruel da contravenção.

Ontem à noite, numa reunião de amigos, refletia com o Macias, meu colega de trabalho, sobre a onda de violência que é crescente no nosso Estado e que já o coloca numa sinistra vanguarda. Aliás, durante toda a noite a conversa gravitava sempre em torno dos últimos assaltos e cada um dos presentes tinha uma história para contar.

Lembrei então do que havia lido e recordei ainda de uma frase que para mim foi crucial: “chegamos a um ponto em que precisamos decidir. A sociedade deve escolher de que lado está”.

A pergunta que o Macias me fez foi mais ou menos assim: “o que será que nós ainda podemos fazer, como sociedade, além de pagar impostos e não estimular a criminalidade?”.

Não tenho nenhuma experiência com o tema e tampouco imagino que soluções teóricas possam acrescentar algo a um tema tão urgente e complexo (funcionariam como discursos acadêmicos). No entanto o problema é concreto: a sociedade está acuada e necessita se defender com “armas” que vão além dos pagamentos e exigência de investimentos que façam jus ao imposto recolhido.

A luta contra a criminalidade assume características novas. O próprio Secretário afirma que: “não existe mais o crime famélico. Ninguém rouba mais um celular pra trocar por um pedaço de pão”. O crime está organizado, o aparelho policial desorganizado e a sociedade a ser protegida atônita.

Penso que chegou o momento de se voltar a falar em Associações de Moradores organizadas que possam sentar com as autoridades, discutirem planos e estratégias para cada bairro que redundem em policiamento mais ostensivo, blitzs freqüentes, soldados na rua, vigilância motorizada (preferencialmente com motos e bicicletas), viaturas sempre postadas nos pontos de saída de cada bairro e comunicação permanente.
 
Para que isso aconteça, a sociedade (que deve escolher de que lado está) pode aumentar a sua parceria com o Setor Público, assumindo até compromissos financeiros.

O Secretário ainda lembra que: “Olhar para a história do Rio talvez seja a melhor vacina para evitar a reprodução dessa tragédia. O melhor que os outros estados têm a fazer é se empenharem em mecanismos de prevenção”. Para fortalecer esse “olhar” ainda é tempo de saber da sociedade organizada de que lado ela deseja estar.

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br

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