ESQUINA CULTURAL

Daniel, foi pro céu

Somos amigos de Franklin e Nazaré de longo tempo. Já houve uma época em que nos encontrávamos mais. A nossa militância num Movimento da Igreja, no caso os Cursilhos de Cristandade, nos tornou próximos e íntimos. Era uma amizade daquelas que exigia quase um encontro diário, ou no mínimo telefonemas (ainda dos fixos) de lá para cá. Eles moravam há 22 anos atrás numa casa no Bairro da Levada, e foi justamente lá onde fomos visitar pela primeira vez Danielzinho. Nessa mesma época chegava também à nossa casa a nossa filha Ioninha.
 
Foram batizados juntos e uma das madrinhas foi a Rita (irmã de Inês). Os dois estiveram juntos algumas vezes e chamavam à atenção porque Ioninha era raquítica, enquanto que Danielzinho era um bebezão. Fomos a muitos aniversários dele na casa de seus pais e assistimos o carinho deles pelo filho chegado quando já estavam na idade de serem avós. A Naza assumiu a maternidade de forma muito comprometida, anulando um pouco a sua própria vida.

Semana passada reunimos os nossos filhos para comentar o assassinato de Danielzinho nos seus 22 anos. O crime ocorreu numa esquina depois de nossa casa. Os meninos não lembravam mais dele porque a separação da amizade também limitou o contato entre eles. No entanto, todos conheciam um pouco da história dele, porque de vez em quando comentávamos em casa os acontecimentos.

Desde 14 anos de idade, ainda uma criança necessitando de colo, envolveu-se com drogas ilícitas. Assistimos e testemunhamos a luta de seus pais numa tentativa de recuperar o filho que estava perdido. Verdadeira via crúcis, peregrinação de internamentos e tratamentos os mais diversos. De quando em vez tínhamos notícia da melhora, com possibilidade de recuperação, e logo depois novas notícias de fracassos. Um caminho de idas e vindas, na maioria dos casos sem volta.

Muitas mudanças aconteceram na vida de Naza e Franklin desde a chegada de Danielzinho. Até os 12 anos muitas alegrias e muitos planos. Depois, muita preocupação e sofrimento. Até morar para eles ficou uma coisa difícil, muitas vezes o convívio em comunidade era conturbado pelas atitudes equivocadas e hostis de seu filho, e tinham que mudar de endereço. Mas eles não desanimavam e nem se entregavam; viviam sempre agarrados a qualquer possibilidade de resgate e, nesse sentido, permaneceram se esforçando. Até que os próprios algozes que levaram Danielzinho ao vício resolveram também acabar com a sua vida. E um pouco da vida de seus pais.

Tenho um amigo espírita que sempre encontra explicações para esses acontecimentos da vida terrena. Se perguntasse a ele o porquê de fatos como esses, ele certamente me responderia: “Danielzinho veio para que Naza e Franklin ganhassem o céu”. Eu, em minha pequinês, prefiro pensar: “que o céu para eles seria Danielzinho vivo, liberto de drogas e feliz”.

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br

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