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A cruel idade
Nunca gostei de chamar
a terceira idade de melhor idade. Agora, que sou quase
sexagenário, estou ainda mais convencido de que essa não é a
melhor idade. Não posso dizer também que é de todo ruim
envelhecer, mas algumas transformações mais atrapalham do que
animam a vida. Essa história de dizer que é bom envelhecer
porque vamos ficando mais experientes em muitas coisas, deixa-me
sempre com a sensação de que bom mesmo é ser jovem e
inexperiente. Bom mesmo deveria ser alcançar a experiência ainda
jovem, para não cometer tanta insensatez. Uma delas, a de levar
a vida trabalhando para o governo na esperança de um dia
descansar (não definitivamente – risos).
Todos que trabalham pensam em um dia estar definitivamente
aposentado (não terei essa chance, vou morrer trabalhando) para
viver o justo repouso. Para muitos, a chegada desse momento é o
período de maior decepção. Uns sentem falta do trabalho porque a
vida os viciou, mas na verdade ao parar de trabalhar muitos
percebem que a vida de aposentado é um verdadeiro tormento.
Ontem atendi a um paciente de 76 anos que já frequenta
habitualmente minha Clínica desde a época em que ainda
trabalhava num consultório situado à Rua da Alegria.
Seguramente, mais de 20 anos de acompanhamento cardiológico. Já
não vivemos uma mera relação médico/paciente, mas uma relação de
amigos (às vezes até brigamos, muitas vezes nos divertimos um
com o outro). Nessa última visita percebi que estava muito
entristecido. Procurei ver o que se passava e ele me revelou
cabisbaixo: “doutor, depois de tantos anos de convívio eu vou
lhe abandonar. Não que esse seja o meu desejo, mas o problema é
que não consigo mais pagar o valor de meu plano de saúde. Tenho
que fazer uma opção entre comer ou pagar o meu plano em dia”.
Completou seu desabafo diante do desrespeito que tem o governo
com essa categoria, e acrescentou laconicamente: “o meu salário
não sobe há muito tempo e nada posso fazer para reivindicar. Que
força tem um aposentado para exigir respeito? Os ativos fazem
greve. O único protesto que posso fazer é realizar a greve
inversa, ou seja, voltar a trabalhar, e para isto já não sirvo”.
Deu-me vontade de chorar ao ouvir aquele desabafo, e ao mesmo
tempo despedida depois de tantos anos de convívio, porque o
incentivei a continuar comendo.
Ao mesmo tempo fiquei imaginando que naquela idade as doenças
não poupam ninguém, e justo quando ele mais precisa ter um plano
que assegure o seu direito de ser atendido vai ficar na
dependência de um sistema de saúde que universaliza apenas o
descaso.
Uma outra cliente, também já aposentada, definiu a crueldade da
cruel idade como sendo: “aquele tempo da vida em que até
genérico fica caro”.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
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