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Convivendo
com sintomas (1)
Os quase 33 anos
de trabalho na medicina têm me ensinado o que os livros não
trazem escrito. Podemos chamar isso de experiência, que somada à
velhice (risos) nos dá a ousadia de dizer coisas que antes não
ousávamos. Hoje prefiro correr o risco de errar com uns poucos,
desde que acerte com muitos. Sabemos que medicina não é como
matemática (onde 2 + 2 = 4, e às vezes a casa ainda cai). Com
isso quero dizer que prognosticar em medicina é correr riscos
desnecessários. Assim, prefiro sempre tranqüilizar o meu
paciente, que submetê-lo a estresses cruéis, mesmo quando o
diagnóstico não é tão favorável.
Vou aproveitar esse espaço semanal para, ao menos uma vez ao
mês, tratar de observações da minha prática clínica diária. Vou
começar essa série de informações falando de um tema palpitante
(as famosas palpitações): o trabalho do coração é quase sempre
silencioso e imperceptível, mas em algumas situações (normais ou
patológicas) o paciente percebe que tem coração, e isso o
incomoda.
Para o médico raciocinar a partir desse tipo de sintoma exige
que ele sempre investigue se a queixa é expressão de uma doença
que está escondida ou algo passageiro geralmente ligado ao lado
emocional. Esse tipo de relato pode acontecer quando o coração
bate forte, descontrolado ou rápido. Uma boa investigação
permite ao médico distinguir o que está acontecendo. A
perturbação do ritmo mais comumente encontrada corresponde à
presença das famosas extra-sístoles.
De vez em quando a seqüência normal de batimentos é interrompida
por um batimento precoce, e o paciente pode perceber essa falha
porque existe uma sensação de vácuo (muito comparada à sensação
de andar em elevador). Em pessoas jovens quase sempre são
benignas e passageiras. O tratamento com medicamentos é pouco
recomendado. Em geral acontecem em determinadas situações de
estresse, e vão embora quando essas situações são controladas.
Ouvir de um médico uma informação desse tipo é meio caminho
andado para a cura. Receber uma informação inadequada pode ser o
suficiente para o desenvolvimento da chamada síndrome de pânico
(mesmo assim, o Ministério da Saúde adverte: em caso da
persistência dos sintomas procurar um médico – risos).
Marco Mota / Médico cardiologista / E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
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