Minha filha mais velha (ainda bastante nova) contou-me que, na
semana que antecedeu o dia das mães, observou um curioso diálogo
de minha filha mais nova (já ficando “velha”, nos seus cinco
aninhos), Louise, com a Bubu (avó que nunca fica velha e que tem
uma saúde irritante – risos). O motivo da conversa fora os
preparativos para a festinha que a Escola estava organizando
para as mães. Acredito que nesses momentos sempre se aproveita
para despertar nas crianças o interesse para o fenômeno do
nascimento, que tem tudo a ver com o processo natural de ter
sido de dentro da barriga da mãe. A conversa foi mais ou menos
assim: “Bubu, você nasceu como?”. A Bubu respondeu: “da barriga
de minha mãe”. “E a sua mãe nasceu como?”. “Da barriga de minha
avó”. E, assim, a Louise foi percorrendo todas as gerações, até
que a Bubu, cansada de responder, resolveu interromper a série
de indagações perguntando: “por que essa sua curiosidade com
esse assunto?”. Ela parou um pouco e respondeu: “é que tem um
“problema” que eu não entendo direito, porque todo mundo nasceu
de uma barriga e eu nasci de dentro de um coração ?”(não sei
quem ensinou isso a ela).
É, minha filha, esse é de fato um problema muito complexo para
sua amadurecida, porém jovem, cabecinha. Pior ainda, seria se eu
lhe dissesse que, na verdade, você nasceu de dentro de muitos
corações. E, ainda mais complicado, seria lhe contar que o
coração de onde mais você e seu irmão Lucca demoraram a nascer
foi justamente o meu. Logo que você chegou, os corações que lhe
deram vida foram os de sua mãe e de seus irmãos, acolhendo-a de
imediato. O de seu pai ainda relutou um pouco, porque esperou
que a razão desse lógica ao seu nascimento, e foi vencido porque
diante do amor a lógica perde o sentido. Agora, imagine se tento
melhorar o seu “problema” contando essa história. Acho (não,
tenho certeza) que a sua cabecinha ia ficar cada vez mais
confusa.
Filha, deixe-me
revelar um segredo. Seu pai tem preparado para você um livro em
que conta a “verdadeira” história de seu nascimento. Esse livro
intitula-se “Histórias que interessam apenas a sete pessoas”,
também a mais duas que as escreveram, e a mais três que delas
participaram ativamente. É uma edição limitada, que pretendo
entregar a você, e a todos os seus irmãos, no momento oportuno.
Por enquanto, apenas a Alana recebeu, depois que resolveu ir
embora de casa. Ao entregar-lhe o livro, eu lhe disse: filha,
nesse livro está a sua verdadeira história de vida. Se houver
interesse seu em conhecer, pode ler. Eu até nem gostaria que
você lesse, porque pode até ser que eu não consiga resolver
todos os “problemas” gerados por essas inquietações; apenas, não
desejaria que você pensasse que eu tenho algum receio de lhe
contar todas as “verdades” (que são de meu conhecimento) sobre a
sua origem.
Então, minha filha, esse
seu “problema” pode ser um dia solucionado, depois que você ler
essas revelações. Apenas, não desejaria que esse seu atual
“problema” impeça que você perceba que existem coisas mais
valiosas numa relação familiar que explicações lógicas de nossas
procedências.
Por enquanto, talvez seja
melhor aumentar um pouco o seu “problema”, tentando fazer você
compreender que, embora tendo nascido de dentro de uma barriga
(como todas as outras crianças), você é especial, porque nasceu
também do desprendimento, da decisão e da vontade de vários
corações.
Marco Mota
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br