|
Fazer o quê
cidadão?
Nesta
quinta-feira estou viajando mais uma vez para São Paulo. A
exigência do trabalho me leva a ter coragem de chegar ao olho do
furacão que destrói o país (acalmado depois de um provável
acordo espúrio entre o governo e os bandidos), forrando com
cinzas (sepultando) as suas instituições.
Badernas acontecem em qualquer país, mesmo nos ditos civilizados
(como foi o caso recente da França). Atos de violência explodem
em qualquer parte do mundo, especialmente comandado por
terroristas e movidos por causas ideológicas. A diferença é que
no Brasil os atos de selvageria, que estamos assistindo com
perplexidade, são comandados por bandidos, e muitos deles de
dentro de presídios ditos de segurança máxima, e pasmem, quem
sabe, tendo como estopim (no país do futebol) o desejo de
acompanhar a Copa do Mundo em televisores de tela plana, já
adquiridos no comércio local (com verba vinda nem sei de onde),
contrariado.
Dizer que a ousadia desses bandidos foi alimentada pela própria
desmoralização que assistimos nas esferas de poderes
organizados, pode ser exagero, mas encontra lógica. Num país em
que um cidadão convocado para depor numa CPI já chega protegido
por um habeas corpus que lhe impede de ser preso, mesmo quando
culpado, e que lhe permite também não responder às perguntas
formuladas com a verdade (pode continuar mentindo ou se
“esquecendo” do que disse); num país onde o Presidente da Câmara
de Deputados é acusado (fato comprovado) de cobrar propinas do
locatário de um restaurante que funciona dentro das dependências
do Congresso Nacional, renuncia para não ser cassado, e já pode
voltar no ano seguinte como o Deputado mais votado; num país em
que uma quadrilha estabelecida nas entranhas do Poder rouba
bilhões de reais, e não tem nenhum membro dela ao menos preso
por um dia; o que pode significar tocar fogo em alguns bancos,
queimar alguns ônibus, metralhar uns poucos postos policiais ou
mesmo matar algumas (perto de uma centena) pessoas inocentes?
Penso (logo insisto) que para o acordo ter ficado de melhor
tamanho a cor da roupa (que sabemos entrou na negociação) teria
que ser verde e amarela, acrescentar uns bonés e, pelo menos nos
jogos do Brasil, liberar umas caipirinhas. Afinal, Copa do Mundo
é coisa séria, e futebol no Brasil é religião (daí o fanatismo).
Quanto a nós pobres e simples mortais, que a tudo assistimos
(até mesmo a Copa, mas sem tela plana) estarrecidos e
impotentes, apenas nos resta solfejar: fazer o quê cidadão,
fazer o quê?
Marco Mota / Médico cardiologista / E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
Voltar
|