ESQUINA CULTURAL

E ela chegou para o Natal

Tenho guardado comigo dois livros escritos e não publicados. O primeiro deles tem um motivo especial porque são apenas sete exemplares e dedicados a sete de meus dez filhos. Apenas Alana já recebeu o dela. O segundo, que tem o título dessa prosa, conta um pouco da vida de Annelise e trata de quatro cartas “escritas pelo meu coração” num momento em que ela havia optado por uma vida consagrada. Também não publicarei porque dela não obtive autorização – será um livro de apenas um exemplar, e esse eu já entreguei para ela.

Posso contar que esse livro trata também da alegria que nos proporcionou o seu retorno para a convivência em família, e dentro dele estão registradas diversas prosas que escrevi quando o sentimento de ausência ocupava todo o meu coração. Essas prosas eu reparti com os meus (poucos) leitores deste matutino.

Esse título tem para mim um significado especial porque foi criado numa de suas voltas para uma breve permanência, e antecedeu ao Natal de 2003.

Nesse sábado a Nana (como carinhosamente a chamo) vai “juntar os trapos” com o Bruno. Um velho namorado que pacientemente esperou por esse “Natal”, quando a opção de vida dela ainda estava focada na opção religiosa. É um bom menino, e já mora na nossa casa há mais de um ano. Acho que já deu para descobrir o mau humor da Nana quando acorda. Eu que saio todos os dias com ela de casa para o trabalho já sei que devo conversar sozinho e não fazer nenhuma pergunta a ela até mais ou menos dez horas da manhã (quando ela fica um pouco mais participativa).

Acho que vou suportar bem a distância de quatro quarteirões (ela vai morar num apartamento bem pertinho de nossa casa). Mas a casa já vai ficando um pouco vazia. Marnes e Alana já casaram e foram embora, e a Inesinha está estudando e morando fora. Eu e Inês temos que nos acostumar com essa solidão a seis – risos.

A minha relação com a Nana é tão forte que já ouvi do Bruno uma frase mais ou menos assim: “seu amante estava lhe procurando – numa alusão a mim”. Mas tenho que reconhecer que além de ser a filha de número um (quero dizer aquela que nasceu primeiro, ouviu Tita) temos muitas coisas misturadas – trabalhamos juntos, temos conta bancária conjunta, dividimos o carro, e temos cumplicidades que nem o casamento vai abalar - já prometeram que do carro se libertam no final do ano (espero).

Filha, que posso lhe dizer nesse momento (já que a sua maturidade não justifica nenhum conselho)? Vou apenas lhe fazer alguns pedidos: ensina para a Tita a receita da sobremesa diet; deixa com a Ione a chave da dispensa; deixa com o Marquinho um pouco de seu mau humor matinal; deixa com o Plínio o seu gosto pelo estudo; com a Louise umas moedinhas para ela colocar no cofrinho; e com o Lucca e a Bubu a chave de seu quarto.

Para mim e sua mãe não precisa deixar nada, basta-nos a lembrança “daquele Natal” que você chegou para ficar.

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br

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