ESQUINA CULTURAL
Tenho chance (ainda que remota)

Uma das coisas que eu não entendo direito (entre as várias que já confessei) é essa questão de declarar santidade para algumas pessoas. Falo isso porque tenho acompanhado a pressa como desejam reconhecer essa característica no falecido Papa João Paulo II. Curiosamente, para evoluir o processo de beatificação, não parece ser tão importante considerar a trajetória feita pelo Papa no sentido de ter sido instrumento da paz, e tampouco a sua peregrinação pelo mundo no sentido de juntar os povos e as várias religiões em torno de um projeto comum de humanização. Talvez a pressa encontre justificativa na força e no apelo que a sua agonia de morte (por ser uma figura extremamente carismática) foi capaz de despertar, conseguindo parar todo o mundo, e até mesmo concentrá-lo física e mentalmente na Praça de São Pedro. O problema é que para ser santo apenas isso não basta, é necessário ter comprovação e, assim, exige-se a caracterização do milagre.

Li, recentemente, que já existe um relato de cura acontecido depois de uma visita do Papa João Paulo II a um paciente portador de câncer de pulmão num estágio avançado, que depois de ter recebido a benção Papal o tumor havia involuído e mesmo curado. Acho muito interessante como essa questão de cura de problemas de saúde aparece sempre nos processos de beatificação. Parece até que a caracterização do milagre exige “atestado médico”.

Conheço um santo anônimo, na verdade uma santa, que nunca será publicamente reconhecida, mas tenho certeza de sua santidade porque convivi com ela. Falo da santa Anita, minha mãe, cujo maior milagre, coincidentemente, também foi ligado a área médica e de fácil confirmação. Sem instruções suficientes e sem emprego  fixo conseguiu educar quatro filhos e transformá-los em médicos (potenciais fazedores de “milagres”). Se eles não seguiram fazendo os milagres que ela esperava a culpa foi deles, o milagre dela foi completado e por isso com certeza é santa anônima, sem necessidade de comprovação legalista (pelo menos para mim).

Conheço também um outro santo, que não é anônimo para a minha geração, mas que será para gerações futuras se de vez em quando não lembrarmos do nome dele. Fazia parte da hierarquia da Igreja, morou e morreu em Olinda, cidade que escolheu com pouso, habitando num quarto simples e pequeno cujo supérfluo era uma velha cama e um pequeno armário, mas que o impulsionava para percorrer o Brasil pobre e o continente latino-americano, onde seus pensamentos verdadeiramente teológicos (porque tinham como fonte o evangelho) alimentaram um pensar de Deus que deu vida às Comunidades Eclesiais de Base (lado vivo e inserido da Igreja de Jesus Cristo, que hoje está em processo de extinção ou desvirtuado por “teologias” alienantes). Refiro-me a  São Helder Câmara, para mim o maior santo contemporâneo, que talvez, quem sabe, por não ter em seu currículo nenhum milagre de cura física (cura espiritual não lhe falta), não tem nenhuma chance de um dia ser proclamado santo.

Quanto a mim, embora simples pecador, sendo filho de santa Anita, e, além disso, sendo médico que lida todos os dias com processos de cura, fico mais perto dos “milagres” e assim posso dizer que, em matéria de santificação, ainda tenho uma boa chance (ainda que remota).

Marco Mota
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br

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