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Eu fico com a opinião do carteiro
A sucessão de
escândalos em nosso país deixa-nos entorpecidos. Como sempre
esperamos que depois aconteça um ainda pior, acabamos achando
que o acontecido mais recente é coisa do passado (nesse caso, o
passado é a semana passada).
Este é o país do escândalo de plantão. É necessário apenas
aguardarmos a circulação das revistas de finais de semanas para
ter acontecimento novo, ou mesmo para um aprofundamento nos
velhos escândalos (chamo de velhos, insisto, os da semana que
passou).
Poeira levantada, é só ficar procurando que vamos encontrar
desdobramentos (funciona como farofa em ventilador). Agora foi a
vez de um juiz que se utilizava das prerrogativas de seu cargo
para embarcar e desembarcar sem passar na alfândega. Lembro-me
da confusão que aconteceu com a Seleção Brasileira depois da
conquista do Penta Campeonato porque passaram com suas malas e
mercadorias sem a fiscalização.
Nesse caso recente, além de abusar da importância do cargo, e
diante de manifesto conflitos de interesses (porque tinha sob
sua tutela processos da companhia aérea utilizada), ainda
aproveitava para solicitar mudanças nas categorias dos vôos
objetivando desfrutar das regalias da primeira classe.
O pior é que esses benefícios também foram extensivos a
familiares e amigos.
No entanto, mais grave ainda é que mais uma vez isso não vai dar
em nada e o próximo escândalo abafará o da vez.
De tudo, o que mais me deixou feliz foi uma declaração de um
carteiro enviada para a seção de leitores, revelando a sua
opinião simples e sensata. Disse ele o seguinte: “eu, como
carteiro, tenho o privilégio (direito adquirido pela função
exercida) de embarcar sem pagar o meu transporte (ônibus, e sem
direito a primeira classe, podendo mesmo viajar em pé). No
entanto, isso não me confere o direito de também levar a minha
esposa pela porta dianteira”.
Que pena que o carteiro não pode legislar! Caso fosse possível,
certamente não seria em causa própria.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
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