ESQUINA CULTURAL

Cabeça de filho

Meu filho Lucca tem uma ligação afetiva muito forte com a Bubú (sua avó materna). A correspondência é visível. No momento, a Bubú mudou-se para a casa de minha filha mais velha (mas nem tanto) para ajudar a “criar” meu neto Vinicius. Desnecessário dizer que, embora o Lucca seja muito afetuoso com o sobrinho, ele anda sentindo muito a falta da avó em casa.

Ele é uma criança esperta e de vez em quando dá um pouco de trabalho (natural para a idade de oito anos). Desde que a Bubú foi para a casa de Annelise o seu comportamento ficou um tanto instável. Quase sempre ao chegar em casa recebo uma reclamação. Tive até que ser duro e programar alguns castigos. Ficou sem ver televisão por uns dias, e também cheguei a guardar o seu brinquedo predileto (vídeo game).

Recentemente, comecei a receber também reclamações da Escola. Desatenção com as aulas, certa agressividade. Um dia até recebi um telefonema solicitando a minha presença para conversar sobre alguns acontecimentos de sala de aula. Sempre imaginamos que todo o problema estava concentrado na perda temporária do contato com a sua querida avó, e continuamos acreditando mesmo que o motivo desencadeante fosse esse.

No entanto, quando da visita à Escola feita por Inês, a Professora revelou que ele também reclamava do contato comigo. Textualmente queixava-se de minha ausência em casa (muitas viagens e muito trabalho), que ao chegar sempre me recolhia ao quarto para descansar e algumas vezes quando ele entrava bagunçando eu o botava para fora.
 
Confesso que fiquei muito triste com aquela informação porque me considero um pai carinhoso e praticamente vivo em função de cada um deles, mas sentimento é coisa que não se questiona, acolhe-se.

Conversando com Inês, ela sugeriu que fizesse um esforço para algumas vezes ir buscá-lo na Escola. Ela achava que isso seria muito importante para ele. Semana seguinte apertei a agenda e lá estava no horário da saída esperando Lucca. Contava com uma reação de alegria mais forte, mas ele me recebeu, não digo friamente, mas sem muita empolgação. De mãos dadas fomos caminhando para casa (que fica bem perto da Escola) e durante o percurso eu fui refletindo se essa minha atitude teria alguma valia.
 
Quando cheguei em casa comentei com Inês sobre o acontecido. Ela, então, me disse: “criança tem esses mistérios, mas com certeza foi importante para ele”.

Mais tarde quando fui me deitar vi que tinha uma mensagem embaixo do meu travesseiro. Recolhi-a e lá estava escrito: “Pai, obrigado por ter ido me buscar na Escola”.

Só uma coisa funciona melhor que cabeça de filho, coração de mãe.
 

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail: mota-gomes@uol.com.br

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