À
noite assisti pela televisão cenas dos estragos causados pelas
chuvas que caem impiedosamente sobre Maceió. Retratos
comoventes de desespero patrocinados por pessoas simples que,
embora caladas e resignadas, na própria expressão do rosto já
se percebe estampado o sofrimento. Fiquei pensando como reagiria
diante de uma situação semelhante, tendo a minha casa levada
pelas chuvas, o meu mínimo conquistado sendo todo destruído e
olhando em minha volta os meus filhos desagasalhados e famintos.
Foram cenas fortes, daquelas proibidas para menores de quatorze
anos, paradoxalmente protagonizadas por crianças recém
nascidas das artimanhas de uma vida cruel e desoladora.
Um
dos entrevistados falava de um buraco que apareceu nas encostas
de um dos morros e que vem engolindo, depois de cada chuva que
cai, casas e mais casas. Nesse, senti muita revolta com o poder
público, porque na sua denúncia ele dizia que era um problema
crônico, que já havia despertado a atenção dos responsáveis,
que alguns técnicos já haviam comparecido ao local, mas que os
dias iam passando e nenhuma providência concreta havia sido
tomada. Notei que esse morador estava revoltado com o descaso.
Logo, outro entrevistado que vivia a mesma situação, e
ostentando na porta de seu barraco uma placa de “vende-se essa
casa”, buscava na sua ilusória imaginação uma solução
para o mesmo problema. Quem compraria aquela casa?
Dia
seguinte saio de minha casa e percebo também que sou vítima do
“mesmo” problema. No percurso, que eu cumpro diariamente
para ir e vir, também apareceu um volumoso buraco. Não posso
deixar de reconhecer que é mesmo um buraco enorme, daqueles que
pode até engolir um carro. Imediatamente foi providenciado um
desvio, que apenas me leva ao incômodo de ter que andar mais um
quarteirão para chegar em casa e nada mais. Quando comparado ao
buraco que havia assistido no dia anterior pela televisão,
parecia mesmo um furo.
Fui
trabalhar e no retorno uma surpresa, o buraco estava todo
sinalizado com umas telas vermelhas, no local já havia uma
escavadeira e pelo menos seis homens trabalhando vigorosamente.
Junto ao buraco já havia um daqueles guardas da SMTT, apenas
para apontar aos motoristas que havia um pequeno desvio, e só
faltava pedir desculpas pelo transtorno.
Meu
caro e amigo Prefeito de Maceió, devo reconhecer a velocidade e
a competência daquele conserto, mas o buraco de minha rua era
de efeito cosmético, ele não tinha pressa. O buraco que tem
pressa é “mais em baixo” (na verdade mais acima). É aquele
que não atrapalha o tráfego, mas que põe em risco à vida. É
aquele que se continuar crescendo não engolirá apenas carros,
mas derrubará além das casas de pessoas simples, a esperança
e a dignidade.
Por
enquanto, vou fazer como o morador que pensa em vender a sua
casa condenada a cair, vou apelar para uma solução
transcendente, vou rezar a Deus para que o buraco (que não é o
de minha rua) pare de crescer, ou então se mude para o meu
bairro, onde parece que os buracos (nem sei por quê?) têm alta
prioridade.
Marco
Antônio Mota Gomes
Médico
cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br