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O Brasil que não queremos
Sábado passado, logo cedo, chegava para mais um dia de trabalho
quando fui surpreendido com uma faixa de rua postada bem perto
de minha Clínica. Nela estava anunciada a presença do todo
poderoso Ex-Ministro José Dirceu para uma palestra em Maceió.
Até aí tudo bem, porque sabemos da manobra que está sendo
articulada por seus admiradores no sentido de anistiar seus
direitos políticos. Pela “legitimidade” de lutar por esse
direito, nada contra. Acho legítimo até o Roberto Jefferson
tentar a mesma coisa, embora ele próprio já tenha dito não está
interessado. O problema foi o tema da palestra escolhido pelo
ex-ministro para ser abordado diante de seus admiradores (espero
que tenha sido poucos): “O Brasil que nós queremos”.
Achei um tema desrespeitoso, poderia pelo menos ser: “O Brasil
que eu quero”, pois quando usado no plural pode dar a sensação
de que “esse Brasil” é o que eu também quero, e mesmo o que
muitas pessoas desejam.
Em entrevista a um matutino local, o Ex-Ministro afirmou que
mensalão nunca existiu, o que por extensão subentendeu que
Valdomiro nunca foi seu amigo; que os aloprados tesoureiro e
secretário de seu partido apenas pagaram dívidas de campanha
(não importa se com dinheiro que agora já se sabe saiu do Banco
do Brasil, que “nós” queremos); e que Marcos Valério estava
careca de saber que mesmo se fosse descoberto não seria punido,
porque ele morava num Brasil que “eles” davam a garantia para o
ilícito. Até que, os dólares encontrados dentro da cueca do
Assessor do irmão de um Deputado reeleito pelo Brasil que nós
não queremos (a meu ver uma prova tão irrefutável quanto batom
na cueca) nunca existiram, ou mesmo tratou-se de um caso de
alucinação coletiva.
O Brasil que eu quero, Senhor Ex-Ministro, para mim e para minha
geração futura, é o Brasil capaz de prender e punir o “meu”
roubo de quatro gravatas. Sem tomar conhecimento do valor das
gravatas por mim roubadas, de quem eu represento na vida
pública, ou mesmo de que tipo de luta eu travei ou representei
no passado.
O Brasil que eu quero, Senhor Ex-Ministro, é o que no momento
presente não tenha medo de apurar o caos aéreo, que vem se
arrastando por seis meses, que já provocou a morte de 154
passageiros por um avião derrubado irresponsavelmente, e que
pode continuar mostrando para o “Brasil que eu desejo” que o
mensalão existiu e estava entranhado no Poder como um câncer,
alimentado por vários órgãos estratégicos, naquela oportunidade,
comandados por gente que deseja um Brasil diferente do meu.
Para mim, o senhor teria uma bela chance até de contar com a
presença em sua palestra de pessoas que desejam um Brasil
melhor, se o senhor viesse a Maceió para fazer o que fez
publicamente o Rabino Henry Sobel, dizendo: “explicar o que eu
fiz, é assim como tentar explicar o inexplicável. O que eu posso
dizer é que o José Dirceu do mensalão não é o mesmo José Dirceu
que lhes visita”.
No caso do Rabino, pelo menos havia a possibilidade de ter sido
efeito de droga. No caso José Dirceu que droga de possibilidade
existe?
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
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