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Muita borracha e pouco lápis Reconheço que todos os conceitos emitidos e
firmados como relevantes estão em completa revolução, até
mesmo o conceitual sentido atribuído a certos valores que
acreditávamos imutáveis. Temos dificuldade para aceitar esse
tipo de atualização como algo natural, ainda que,
conceitualmente, essa evolução não altere o peso que cada um
deles representa na nossa formação humanística. Quando falo
em mudanças, quero apenas exprimir um desejo de releitura dos
conceitos que vamos elaborando diante de fatos cotidianos,
comparando-os aos que recebemos (principalmente de nossos pais),
considerados estruturantes.
Tenho refletido ultimamente sobre os
conceitos de honestidade, partindo de um referencial pragmático
de que todo ser humano é imperfeito (em todas as suas
circunstâncias). Isso não quer dizer que o fato de
reconhecermos nossa própria imperfeição nos autorize a
cometer mais erros que acertos (embora seja isso que ocorra).
Recebi de um amigo irmão que mora em São
Paulo (uma figura que admiro bastante por enxergar nele mais
acertos do que erros), um pensamento exemplar que diz o
seguinte: "sabemos que estamos errando muito, quando
gastamos mais borracha do que lápis". Esse pensamento
permite refletir sobre os meus conceitos atuais de valores,
principalmente o da honestidade, quando me coloca na condição
muito mais de usuário da borracha do que do lápis. Quando falo
em desonestidade, não estou apenas fazendo referência à
prática da contravenção notória, para ela existe a polícia
e a justiça (ou pelo menos devia existir), e borracha nenhuma
apaga. Refiro-me sim, aos pequenos atos de desonestidade que
cometemos diariamente, quando apenas está em jogo a nossa
reputação pessoal. Refiro-me aos que não provocam danos
graves aos outros, mas que, se pudéssemos juntar de forma
cumulativa no dia-a-dia de nossa existência, certamente,
faltaria borracha para apagá-los.
Coloco todos os meus erros na cesta da
desonestidade, porque são, quase sempre, voluntários,
refletidos e repetidos, o que de forma inconteste vão de
encontro às minhas convicções e, por isso, são desonestos.
Falo das pequenas omissões, dos preconceitos emitidos, das
mesquinharias, das traições, das leviandades e das negações
do Absoluto.
Como apenas ficar, de vez em quando, fazendo
reconhecimento de culpa não constrói mudanças, vou procurar
assumir um compromisso de passar a registrar os meus erros à
tinta. Não desejo com isso dizer que não terei mais chance de
apagá-los, mas, quem sabe, a dificuldade para removê-los
servirá para sinalizar, de forma mais contundente, que estou
usando muita borracha.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail: mota-gomes@uol.com.br
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