ESQUINA CULTURAL

Foi bom para a democracia?

Na semana que antecedeu ao primeiro turno da eleição presidencial escrevi (afirmando) que seria bom para a democracia a existência de um segundo turno. Nesse próximo domingo teremos um segundo e definitivo turno, já parecendo selado o resultado (pelo menos, pelos enfadonhos resultados das pesquisas), que sinaliza para uma reeleição do atual presidente.

Ontem, enquanto retornava de Recife, onde estive participando de mais um Congresso Brasileiro de Cardiologia, aproveitei para refletir se de fato a democracia teve algum ganho com mais quatro semanas de debate político. Na minha reflexão inicial concentrei toda a minha expectativa no resgate da ética, porque acreditava que num debate frente a frente os candidatos ouvissem e respondessem sobre as dúvidas (muitas para mim certezas) que pairavam sobre as suas condutas.

No primeiro debate, produzido por um canal de televisão, ouvi o candidato da oposição fazer ao Presidente as perguntas que eu também gostaria que fossem feitas, mesmo sabendo que não seriam respondidas com a verdade. Soaria mais ou menos assim: apesar de toda a blindagem que foi feita na sua figura Presidente Lula, o seu governo não correspondeu a uma parcela considerável do povo brasileiro em questões cruciais, como as relativas à honestidade e a transparência.

Findo o primeiro debate saí satisfeito com aquele reinício de campanha, e cresceu em mim a esperança de que as questões suscitadas seriam aprofundadas nos subseqüentes, já devidamente programados. Para minha surpresa, o resultado daquela discussão foi o crescimento da candidatura do atual Presidente e a sua chance concreta de reeleição.

Que lição podemos tirar de tudo isso? Vejo que podemos raciocinar por duas vertentes: ou o Presidente de fato é inocente de todas as acusações feitas a ele pela oposição, ou o povo brasileiro, de fato (talvez vencido pelo cansaço), já não dá nenhuma relevância a esse tipo de questão. Até porque, se observarmos os votos atribuídos aos outros dois candidatos que contribuíram para a realização de um segundo turno, veremos que migraram para o atual Presidente (pelo que apontam as pesquisas).

Assim, penso que o segundo turno contribuiu pouco para a democracia, pelo menos para mim aumentou a dificuldade de responder aos meus filhos sobre o que é ser ético. Mas, já que tudo é tão relativo, posso dizer que o segundo turno me ajudou a diferenciar nos nossos debates familiares os conceitos de civismo e cinismo.

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br

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