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O bom
ladrão
Em outubro do ano passado durante o Congresso Brasileiro de
Cardiologia, realizado na cidade de Porto Alegre, fui vítima de
um roubo. Levaram uma mochila tiracolo contendo meu notebook,
três pen drives com todo o meu acervo científico, além de
cartões de créditos e talões de cheques. Era o primeiro dia do
Congresso e tinha duas participações como palestrante. Foi um
golpe duro de assimilar, confesso que perdi a graça pelo Evento
e a vontade que tive foi de retornar logo para casa e chorar as
minhas mágoas. Mas, assim mesmo, cumpri com meus compromissos e
apenas antecipei a minha volta em um dia. Na partida, ainda no
aeroporto, vivi a sensação de estar deixando em Porto Alegre boa
parte de minha vida.
Levei um bom tempo para me refazer da perda, mas aos pouco com a
ajuda de amigos fui recuperando os conteúdos de minhas
apresentações, e refazendo as muitas aulas que estavam salvas na
memória de meu computador e de meus dispositivos assessórios.
Seis meses depois (já nem me lembrava do fato), eis que recebo
um e-mail do ladrão desejando negociar a devolução de meus
arquivos. De início não dei muito valor porque achava que era
muito desaforo, e não havia como estabelecer com ele nenhuma
relação de confiança que me permitisse acreditar em qualquer
negociação. Fui duro no meu primeiro retorno e, para minha
surpresa, recebi respostas elegantes e até mensagens de paz e
amizade. Resolvi testar até onde ia aquela conversa e insinuei
que tinha interesse em receber meu material de volta, mas se ele
de fato estivesse disposto a fazê-lo que usasse o Sedex a
cobrar.
Estabeleceu-se um silêncio de quase 15 dias e imaginei que ele
havia desistido da idéia (na verdade nunca acreditei nela, e
sempre achei que ele estava desejando brincar comigo). Eis que
recebo outra comunicação, e desta feita já informando o
conhecimento de envio pelo correio e solicitando que fosse pegar
a encomenda porque ele pagara a remessa e necessitava da
devolução do dinheiro. No mesmo dia fui até a agência indicada e
lá estava boa parte do material que havia sido roubado, com
todos os arquivos intactos.
O que teria acontecido com o ladrão? Uma crise de arrependimento
seis meses depois? O ladrão também teria caráter?
Saí dali pensando que a quadrilha que assaltou o país há um ano
poderia se espelhar na atitude do bom ladrão e, mesmo sem
confessar o crime, enviar, ainda que por Sedex a cobrar, os
milhões (ou bilhões de reais) que furtou do Brasil. Até porque
os dois casos possuem alguma semelhança: o roubo à Nação começou
pelo escândalo da propina dos Correios, e o roubo que me vitimou
terminou com a devolução do furto também pelos Correios (sempre
os Correios). A diferença é que o ladrão do meu notebook tem
remanescente de caráter, e os mensaleiros abundância de cinismo
provocante.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
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