ESQUINA CULTURAL

A mais bela vitória

Os leitores que me acompanham serão capazes de lembrar o que algumas vezes escrevi sobre a minha filha número cinco, a Ioninha. Posso até dizer que travei com o colégio onde estudou, até concluir o segundo grau, um agradável e longo debate. Algumas vezes conversei com a Direção e com alguns professores, visando trocar idéias sobre a sua evolução (ou melhor, falta de evolução) em alguns conteúdos e disciplinas.

A minha visão é que, para uns alunos, para os quais os pais pagam para vê-los aprovados nos difíceis vestibulares, a exigência deve ser a mais pesada possível. Os conteúdos devem ser também os mais bizarros e exigentes que se possa imaginar, porque a regra estabelecida é prepará-los para a competitividade cruel e descabida do Vestibular. Digo descabida, porque a todos os formandos se deveria assegurar acesso às universidades e gratuitas.
Lembro-me de que, ao participar da formatura de minha filha Inês nos Estados Unidos, chamou-me a atenção o fato de que o diretor de seu colégio, ao final da formatura, anunciou para onde deveria ir cada aluno, e daquela turma não sobrou ninguém que desejasse estudar. Apenas ficaram os que, por opção, escolheram trabalhar, e já com emprego definido.

No Brasil, a coisa é completamente diferente. Como o Estado não assegura o ensino superior de forma gratuita, mesmo aos que pagam os impostos para tê-lo, determina o funil do vestibular para dar acesso às poucas vagas disponíveis. Obrigando nossa juventude a viver essa aventura estúpida de decorar um conteúdo desnecessário, para ter condições de responder às questões que não testam a criatividade nem o poder inovador de ninguém, apenas seleciona os que de forma quase compulsiva se submetem a essa regra.
A Ioninha nunca aprenderia para onde o Teorema de Pitágoras poderia levar sua imaginação. Muitas vezes, flagrei-a debruçada sobre os livros e os cadernos, e de seus olhinhos escorrendo algumas gotas de lágrimas. No entanto, tinha certeza de que o seu caminho poderia ser escrito de forma diferente. Até disse certa vez: “permitam que ela termine o colégio, que o resto fica por minha conta”.

Esta semana, a minha filha número cinco provou que eu estava com a razão (nem sempre estou). Ela passou no vestibular para ser enfermeira (esse era seu sonho). Antecipar se ela será uma boa enfermeira, ou se será feliz com essa opção que hoje faz, é futurologia (ciência do desconhecido). O que posso dizer neste momento é que essa foi, sem sombra de duvidas, a maior vitória que obtive como pai e educador. Eu estava com a razão quando defendia que cada jovem deveria estudar e ser cobrado pelo conteúdo possível e mensurado para seu entendimento.

Posso dizer que estou feliz com essa vitória de minha filha. Mas quantas Ioninhas ainda estão por aí, perambulando pelos colégios, sendo reprovadas e perdendo a chance de um dia serem simplesmente (mas, felizmente) aquilo que seus entendimentos alcançam?

 

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail: mota-gomes@uol.com.br

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