ESQUINA CULTURAL
Beijando o chão do céu

Para os crentes na vida eterna, o saudoso Papa João Paulo II estará nesse tempo presente desembarcando no céu e beijando o chão, como habitualmente fazia em todas as suas viagens pelo mundo. Penso assim, porque não poderia fazer diferente o Papa viajante em sua última viagem.

Passados os dias de luto e consternação (fruto da saudade de um Papa carismático), a vida da Igreja, agora, está voltada para a sucessão de João Paulo II. Embora, dela nós leigos não participemos diretamente, podemos no entanto rezar e pedir a Deus para que os nossos Bispos deixem que o Espírito Santo aponte uma pessoa que ajude a Igreja a fazer o seu caminhar pela história da humanidade.

Para os que têm Fé, esse momento "político" de uma eleição, provavelmente, lenta e complicada será expressão maior do desejo de Deus. Acredita-se que essa reunião, denominada de Conclave, seja um momento de profunda inspiração divina, apenas superado pela reunião dos Bispos do mundo inteiro durante um Concílio. Segue um cronograma de várias etapas, intercaladas de dias de orações, quando o impasse persistir. Penso que a inversão da pauta poderia dar uma chance maior ao Espírito Santo (primeiro um dia de orações, e depois votação, obedecendo apenas às inspirações individuais catalizadas nesse dia de íntima relação com Deus).

O que nós leigos podemos esperar do próximo Papado? Como Igreja é povo de Deus que caminha não posso e nem desejo acreditar que os próximos anos sejam uma continuidade das ações do Papado que se encerrou com a morte de João Paulo II, muito embora, segundo especialistas nesse tipo de sucessão, deva sair um clone do Papa falecido. Não deve mudar o óbvio, o que expressa valores imutáveis de Fé, mas as linhas pastorais da Igreja devem sim fazer uma atualização no sentido de acompanhar os desafios da humanidade.

Tenho um estranho desejo de ver nesse próximo período um Papa menos viajante, que não permita o estabelecimento de uma linha dura de poder centrada no Vaticano, fazendo um doutrinamento da Fé que abafe teologias libertadoras, apenas porque nasceram fora do eixo de poder, sem interpretar as distintas realidades visitadas pelo Papa. Desejo um Papado tão inserido na realidade do povo que seja capaz de, além de beijar o chão, se misturar com a terra por onde caminhou a missionária Dorothy.

Existem duas formas de se beijar o chão: na chegada, como fazia sempre o querido Papa João Paulo II, ou na saída, como fez a irmã Dorothy ao se despedir da vida terrena, enfiando a cabeça no barro vermelho das terras pelas quais tanto lutou e morreu lutando. Acho que, nesse tempo presente, cada um, agora, beija a sua maneira o chão do céu. 

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista

E-mail: mota-gomes@uol.com.br

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